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Uma data para a todos celebrar – Por Renato Augusto Martins

Atualizada em: 27/12/2017 15:24

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Quando essas publicações semanais começaram, escolhi as segundas-feiras pelo desgosto ao domingo, era ao mesmo tempo o mais próximo e o mais distante dia desse infortúnio início da semana. Não pensei, porém, em olhar o calendário. Caso tivesse feito, teria escolhido outro dia. Talvez um que me livrasse das datas comemorativas correspondentes às minhas crônicas.

Pensei em me isolar do mundo e escrever um texto engraçadinho com críticas ao Natal. Como a reação “revirar os olhos” ainda não existe no Facebook, imaginei vários “grr”. Sejamos francos, eu prefiro receber “amei” e “haha”, caso contrário daria sentido ao apelido que certo professor um dia me deu: “polêmico”.

Mas o que dizer de legal do Natal que já não tenha sido batido, rebatido e batido novamente? Conheço o feriado há vinte e um anos e considero pacas. Decidi, então, contar a mais recente passagem de véspera para o dia em minha vida.

Algumas questões desagradáveis me prenderam em Palmas – TO por mais tempo do que eu imaginara. Pensava eu, no início do mês, que encheria minha um tanto quanto volumosa barriga na ceia e desejaria um vazio “feliz natal” para todo mundo em Araguatins – TO. A realidade foi uma passagem de corredor numa van no dia 24.

Lembro bem de, ao reservar minha passagem, optar pelajanela. É claro que eu não poderia esperar muito da comunicação em um momento do ano como esse, mas confesso frustração. Tentar decifrar o que diabos se passa na paisagem escura é um passatempo e tanto, verdadeiro sonífero.

Quando subi a bordo do nada formidável veículo, reparei que ao meu lado estavam uma mãe e seu pequeno bebê. Se me perguntarem, jamais admitiria ser pessimista; mas visualizei uma noite inteira de berros e gritos – não me refiro a grupos de whatsapp; parem, ó! A criança obviamente estranhou o lugar e por diversos momentos ameaçou aumentar os decibéis da viagem.

O moleque e sua mãe pareciam indígenas, a moça cruzou a estrada inteira sem pronunciar uma única palavra, fazendo nada mais do que emitir sons calmantes ao bebê. Curiosidade define o pequeno indígena; me olhava fixamente como se em mim visse seu grande nêmesis. Sob as luzes apagadas, ele tentava me dar golpes no seu estilo de luta natural; em sua cabeça deveriam ser mortais; na minha, apenas engraçados.

Por mais de um momento durante a viagem, alguém comentou não se importar com as condições desde que em casa chegasse. Imagino ser esse o efeito do Natal em viajantes. Noel (o bom velhinho – o mau inglesinho que se cale) deve passar por essas coisas, já não basta ser desacreditado pelas gerações que já nascem com um cordão umbilical USB, ainda precisa visitar todas as boas crianças – sorte dele que estão diminuindo.

Alguém em voz alta disse o que pensei:

– À meia-noite, vamos todos gritar “feliz natal”!

Claro que o plano deu errado, às 0 horas não havia uma viva alma acordada – fora o bebê lutador, claro. Mas o que leva alguém a cogitar algo assim? Ser afetuoso com vários desconhecidos? Por que uma data que há muito teve o seu significado ressignificado ainda causa momentos como esse? Será que Jesus, andando de van, gritaria por seu aniversário no meio do trajeto?

Não sou cristão, não acredito no aniversariante nem no Noel, mas até mesmo eu penso em distribuir abraços nesse dia. Seria a coerção social tão perversamente bondosa nesse dia em que todos seríamos obrigados a ser amáveis? É fato ser um dia especial para todos, para cristãos, para ateus, para brasileiros, em suma, para quem vive na placenta desse planeta azulzinho. Seja lá quem surgiu com essa ideia, forjou de um vulcão de bons pensamentos, uma data. Uma data para a todos celebrar.

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