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Sem filtros – o culto ao padrões de beleza inalcançáveis nas redes sociais 

Atualizada em: 16/10/2017 16:08

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Por Pedro Monteiro

Alimentando a doença

Desde muito cedo tive as redes sociais como um mundo alternativo onde tudo era lindo, assim como a vida das pessoas que eu tanto admirava e invejava abertamente. Até então não havia algoritmos que selecionavam seus gostos e jogavam na tela o que você buscava, e isso de certa forma ajudava a saciar comedidamente a vontade de ter o padrão de aparência e de vida que eu almejava. No Instagram e no Facebook, os aplicativos já selecionam o que acham que você precisa pelo conteúdo que você curte, e logo as imagens de pessoas perfeitas vivendo vidas perfeitas com seus corpos perfeitos começam a te adoecer: ou você se adapta àquilo ou você só fica olhando das coxias.

Eu não tinha dinheiro nem tempo para ser aquilo que eu via, então fiquei olhando de longe, alimentando um desejo nada saudável e me jogando cada vez mais para baixo. Normalmente esse tipo de coisa é mais comum entre jovens do sexo feminino. Dizem que garotos ligam menos para padrões de beleza. Bobeira. De acordo com uma matéria publicada na revista Trip, a prevalência é superior em mulheres (90% dos casos), então foi dada pouca importância aos estudos em homens.

Eu sempre gostei muito de fotografia. Hoje, trabalho com isso. E nessa área, nem é preciso mencionar que beleza é tudo. A minha autoestima sempre ficava abalada ao fotografar uma pessoa muito bonita, e era lá que eu via que ninguém era perfeito, mas não importava, porque era uma questão de se mostrar perfeito. Na internet, você é o que você posta. Não acho que seja culpa da rede social. Esse tipo de problema vem de dentro, e explorando mais a fundo esse mundo, vi que outros jovens também reproduziam esse tipo de pensamento venenoso e compactuavam para que essa doença se alastrasse.

Voltando aos anos 2000, onde você tinha que ir atrás do que queria, me deparei com comunidades e blogs que tratavam do assunto, da pior maneira possível, claro. Lá aprendi que tudo tinha um nome bem bonitinho para ninguém saber do que se tratava. Minhas amigas Ana e Mia. Esse tópico é batido, datado, mas ainda resiste e basta um clique para ser seduzido pela magreza rápida e dolorosa. Ana e Mia são apelidos carinhosos para anorexia e bulimia, transtornos alimentares e psicológicos, a primeira leva a pessoa a praticamente zerar a quantidade de alimento ingerida, e a outra é caracterizada pela compulsão alimentar, seguida de indução ao vômito. Nessas páginas eram discutidos meios de induzir seu corpo a não sentir fome, e regurgitar a comida com mais facilidade, tudo em prol da perfeição. Perfeição, inclusive, é uma das palavras chaves que já aparecem instantaneamente em qualquer post do tipo.

Não obstante, os moderadores compartilham incessantemente conteúdos de teor gordofóbico, a fim de assustar e causar repulsa. “Eu não quero ser assim”, pensava comigo.

“Preciso emagrecer mais”

Eric Anderson Ferreira dos Santos, 19 anos, de Dianópolis, conta que sofreu muito com influências estéticas da internet. “Eu me identificava com a moda emo da época, via fotos no Tumblr, andava com pessoas magras. Desde pequeno eu era gordinho, não me importava com isso por já não ser contente com outros fatores da minha aparência, então ser gordo era o de menos”.

Na adolescência, Eric percebeu que estava acima do peso, então decidiu emagrecer drasticamente. “Eu não tomava café, minhas refeições eram uma colher de sopa do que tivesse. Antes de dormir, uma colher de granola ou até mesmo nada”. Ainda assim, ele continuava vendo um reflexo distorcido no espelho. “Eu precisava emagrecer mais”. O jovem, que tem 1,93m de altura, conta que chegou a pesar pouco mais de 60kg.

Seus pais não acreditavam que isso era questão de saúde, então Eric teve a sorte de conseguir sair dessa sozinho. “Foi o choque de realidade. Um dia acordei com os dedos roxos e desmaiei, tomei soro, e no caminho de volta para casa, no carro, vi o quão finas estavam minhas pernas”. Mesmo curado, ele ainda tem problemas recorrentes da anorexia – doenças autoimones, gripes frequentes, pele flácida.

Não acredite em tudo que você vê

No Instagram, além de visualmente atraentes, os posts vem recheados de dicas de dietas e exercícios tão bem formulados que parecem de fato ter algum fundamento, disseminados pelos chamados influenciadores fitness. A maioria deles, claro, sequer tem credencial, tampouco são formados em nutrição ou educação física, por exemplo. Uma das maiores polêmicas acerca do assunto foi um método criado pela blogueira fitness Gabriela Pugliesi, no qual ela instruía suas seguidoras a autorizar que as amigas vazassem fotos íntimas caso elas saíssem da dieta. No início desse ano, Pugliesi e seu marido foram denunciados por exercício ilegal da profissão de Instrutor de Educação Física, após um evento onde ministraram uma aula. Ela e outras celebridades vendem produtos e até mesmo programas de emagrecimento sem acompanhamento profissional, apenas pela falsa credibilidade de serem famosas.

“O que acontece hoje é uma busca incessante em ter um perfil físico dentro dos padrões das celebridades”, explica a nutricionista Patrícia Klein, “e as pessoas esquecem-se do mais importante que é priorizar a saúde em suas escolhas alimentares. A mídia tem o poder de passar informações diversas e de forma rápida, e queremos uma solução rápida e prática, então alguém que vende a sua imagem divulgando algo milagroso para emagrecimento se torna uma referência”.

Para ela, o profissional Nutricionista hoje é visto como não resolutivo nos casos de muitos acompanhamentos, pois o que o paciente busca é uma fórmula de obter resultados sem nenhum esforço. “A nutrição é muito mais que isso; é prezar por escolhas alimentares saudáveis como forma de reeducação para a vida toda, e não para um verão, um final de ano”.

A psicóloga Maria Clara Nogueira acredita que ao nos depararmos com esses estereótipos que tomam a magreza e corpos esculturais como essência de beleza, nos vemos diante de uma frustração, um possível gatilho para o sofrimento psíquico (baixa autoestima) e também para a utilização de métodos desesperados para se encaixar esses padrões.

“Existem múltiplas evidências de que os fatores psicossociais desempenham um grande papel quando se fala de transtornos alimentares. A sociedade atual gera uma pressão acerca dos ideais de beleza que são aceitos pela sociedade. Além das revistas que trazem o corpo ideal feminino sempre como sendo magro. Vale ressaltar também que fatores biológicos podem vir a influenciar essa condição. As mulheres sofrem grandes flutuações hormonais, sendo estas superiores as dos homens, aonde estas interferem na produção de um neurotransmissor responsável pela regulação de humor (serotonina) e isso pode gerar uma baixa autoestima, podendo assim abrir as portas para alguns transtornos, entre eles o transtorno alimentar”.

A dica de ambas é: procurar um profissional que te esclareça todas as dúvidas sobre os medicamentos de emagrecimento no mercado, siga perfis de alimentação saudável e atividade física registrados, como o do ministério da saúde, que tem várias opções recomendáveis e com embasamento científico.

P.S.: Durante a produção dessa matéria, três perfis de alimentação fitness e exercícios físicos “saudáveis” me seguiram.

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