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⟳ Atualizada em: 10/06/2021 20:25

Segundo levantamento realizado por Daniel Duque, pesquisador do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), a renda média domiciliar per capita (por pessoa) dos brasileiros foi de R$ 1.065 no primeiro trimestre deste ano, uma queda de 10% em relação à média de R$ 1.185 de igual período de 2020.

Esse foi o quarto trimestre seguido de queda da renda na comparação anual.

A maior redução foi registrada no segundo trimestre de 2020 – marcado pela primeira onda da pandemia no Brasil -, com retração de 12%. No terceiro e quarto trimestres do ano passado, o recuo foi idêntico: de 11%, sempre em relação ao mesmo trimestre do ano anterior.

Neste início de ano, mesmo com o crescimento acima do esperado do PIB (Produto Interno Bruto) e com uma boa abertura de vagas formais, a queda da renda continuou.

A economia brasileira cresceu 1,2% entre janeiro e março, em relação ao quarto trimestre, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), acima do que era esperado pelos analistas. E foram abertas 837 mil vagas com carteira assinada, segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) do Ministério da Economia.

Foto: Divulgação.

O levantamento do pesquisador do Ibre-FGV, realizado com base na Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua do IBGE, considera o rendimento efetivamente recebido pelas pessoas em todos os trabalhos por elas exercidos.

Não considera, porém, outras fontes de renda, como benefícios sociais, aposentadorias e pensões e rendimentos de aluguel, pois esses dados só são divulgados pelo instituto oficial de pesquisa ao fim do ano fechado, com a publicação da Pnad Anual.

Para calcular a renda domiciliar per capita média, Duque levou em conta a soma dos rendimentos do trabalho, dividida pelo número de pessoas no domicílio.

Por que a renda segue em queda

“Como há muitas pessoas procurando emprego, isso diminui as pressões salariais”, observa Duque, sobre o efeito do excesso de oferta de mão de obra sobre os salários.

Apesar da forte criação de vagas formais nesse início de ano, o desemprego foi recorde no trimestre encerrado em março, com taxa de desocupação de 14,7% e um total de 14,8 milhões de pessoas desempregadas, segundo o IBGE.

Essa aparente contradição acontece devido à discrepância na recuperação entre os mercados de trabalho formal e informal, um dos efeitos da pandemia do coronavírus.

“Há também o fato de que as empresas não estão reajustando salários acima da inflação pela própria situação delas, em decorrência da crise”, destaca o pesquisador.

Segundo o boletim Salariômetro da Fipe-USP (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo), de janeiro a abril deste ano, 61,6% das negociações salarias coletivas entre patrões e empregados resultaram em reajustes abaixo da inflação.

Um total de 25,4% dos acordos coletivos repuseram a alta de preços e apenas 13% das negociações resultaram em reajustes acima do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), indicador que é referência para os reajustes salariais.

“A aceleração da inflação é um outro fator importante. Por conta dela, os reajustes nominais não têm sido capazes de contrapor a variação dos preços”, diz Duque.

Até março, o INPC acumulou alta de 6,94% em 12 meses. E a situação piorou nos meses seguintes, com o índice acumulando avanço de 8,90% até maio, conforme divulgado na quarta-feira (09/06) pelo IBGE.

A inflação esse ano tem sido puxada pelo aumento de preços dos alimentos e combustíveis, devido à valorização das commodities, impulsionadas pela recuperação da economia global, com o controle da pandemia em outros países. Em maio, somou-se a esse quadro a alta das contas de luz, devido à seca histórica, que também deve afetar os preços da alimentação.

O economista reconhece que parte da queda da renda pode ter sido impactada pela mudança de composição da amostra da Pnad, que tem sido afetada pela migração da coleta dos dados de presencial para por telefone em meio à pandemia. Mas avalia que, dada a magnitude da retração, esse fator certamente não explica a totalidade da baixa.

O que aconteceu com a desigualdade?

Apesar da continuidade da queda dos rendimentos nesse início de 2021, a desigualdade da renda do trabalho teve uma pequena melhora, em relação ao pior momento para o indicador, registrado entre o segundo e terceiro trimestres do ano passado, observa o economista da FGV.

O Índice de Gini da renda do trabalho – uma medida de desigualdade que varia de zero a um, sendo zero a igualdade perfeita -, ficou em 0,670 no primeiro trimestre deste ano, abaixo do pico de 0,677 registrado no segundo trimestre de 2020. Apesar dessa ligeira melhora, o indicador segue muito acima do nível anterior à pandemia.

“Depois de aumentos bastante relevantes no segundo e terceiro trimestres do ano passado, estamos vendo uma desaceleração da desigualdade”, diz Duque.

Um dos fatores que explica essa dinâmica é o comportamento da renda dos trabalhadores formais e informais. No primeiro trimestre, a renda média dos formais caiu 3% em relação ao mesmo período de 2020, enquanto a dos informais aumentou 1%.

“Começa a haver um retorno dos trabalhadores informais, com mais horas trabalhadas”, observa Duque. “Por outro lado, como a renda dos formais é maior do que a dos informais, isso contribui para a queda que observamos na renda média geral.”

E o que esperar pela frente?

Na desigualdade, o economista da FGV avalia que devemos observar à frente uma desaceleração adicional.

“Enquanto no mercado de trabalho do topo a situação está praticamente normalizada, ainda há espaço para o mercado de trabalho dos mais pobres melhorar um pouco mais”, afirma.

“Mas provavelmente não voltaremos rapidamente ao nível anterior à pandemia, porque, geralmente quando há um choque tão grande, ocorrem perdas não transitórias, com pessoas que talvez nunca voltem à renda anterior delas, que talvez nunca voltem a procurar emprego ou nunca mais encontrem uma vaga”, observa o economista.

“Choques transitórios muito fortes, mesmo que durem um curto período de tempo, podem ter um impacto permanente, de modo que podemos ter um efeito de longo prazo, em que não vamos conseguir retomar, pelo menos não na velocidade esperada, a situação do mercado de trabalho da população mais afetada, que foram os informais e os mais vulneráveis em geral.”

Se a desigualdade tende a melhorar, para a renda, a situação é mais problemática, diz Duque.

Isso porque ainda há muita gente para ser reabsorvida pelo mercado de trabalho e as horas trabalhadas já estão quase no nível pré-pandemia. “Isso deve fazer com que o salário médio caia ainda mais, provavelmente, e depois ainda fique estagnado por um tempo”, prevê.

“A competitividade do mercado de trabalho está muito elevada”, observa o economista. “Isso faz com que a gente tenha uma trajetória da renda do trabalho provavelmente bastante ruim para os trabalhadores por muito tempo.”

Segundo Duque, o efeito macroeconômico disso já ficou evidente no PIB do primeiro trimestre, quando o consumo das famílias registrou uma queda de 0,1% em relação ao quarto trimestre do ano anterior e recuo de 1,7% na comparação com o primeiro trimestre de 2020.

“Deve haver alguma melhora do consumo no segundo trimestre, devido à volta do auxílio emergencial”, acredita Duque. “Mas depois disso, podemos voltar para uma situação negativa, com as famílias tendo um menor rendimento do trabalho, que pode resultar em uma desaceleração do crescimento no segundo semestre, acompanhada do aumento da inflação.”

O professor Ezequiel e a produtora de moda Cristina compartilham do pessimismo do economista. Ambos dizem que não sentiram o aumento do PIB no primeiro trimestre nas suas vidas.

“Isso para mim é ‘caô’ do governo para engambelar os incautos”, afirma o músico.

“Eu não senti esse crescimento da economia, muito pelo contrário”, diz Cristina. “As coisas para mim pioraram bastante, parece que a cada dia eu vivo mais no aperto.”

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