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Regra de dois – Por Savick Brenna

Atualizada em: 30/05/2018 08:54

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Meus pais me ligaram como de costume, e avisaram que precisavam desligar porque minha mãe estava fazendo uma nova receita de arroz que meu pai havia visto no programa do Rodrigo Hilbert. Depois que desliguei o telefone, fiquei pensando na forma em que cada casal cria sua fórmula para ser feliz, o que serve pra uns, nunca servirá para outros, exemplo disso são meus pais.

Uma coisa que muitas vezes é considerada pivô de muitas separações é a tal da rotina, aquela que leva todo o interesse pela novidade e o sabor da conquista embora, no entanto, vejo que meus pais têm uma vida completamente rotineira e são felizes juntos há quase 30 anos. Como isso é possível? Só eles poderiam dizer.

Pra começar, eles acordam por volta das 5 horas da manhã totalmente dispostos, pois dormiram cedo pra isso. Eles vão até o principal parque da cidade e caminham por horas, depois voltam pra casa, e vão de carro até a padaria de costume para tomar o café reforçado, pois o dia será longo, só aguarde para conferir. Ah, a padaria não é a mesma de sempre, eles passam meses tomando café em uma, e quando se cansam começam a frequentar outra por meses e assim eles vão conferindo de tudo um pouco.

Depois do café da manhã, é hora de ir para a rua resolver as pendências, seja no banco, seja em alguma borracharia, ou seja, ficar de bobeira mesmo pelas ruas da cidade. Próximo da hora do almoço já é hora de voltar pra casa, hora de preparar a refeição que provavelmente minha mãe já adiantou entre a caminhada e a saída das pendências. Eles almoçam juntos, seja na mesa, seja na sala, seja com os filhos ou sem, e depois vem a sobremesa, que eles também fazem juntos. Às vezes meu pai surge da cozinha com uma vasilha cheia de mexerica e os dois começam a descascar juntos, é surreal, parece até casal da Disney, mas não são.

Foto: Divulgação

Durante a tarde eles costumam assistir o programa “casos de família”, eles criticam, dão opinião e se indignam com aquelas histórias malucas, e quem chega na sala pra assistir ganha uma sinopse do programa do dia, feita especialmente por eles. Depois disso, enquanto minha mãe cuida do que é do seu interesse, meu pai assiste algum programa repetido do Bear Grylls.

No final da tarde é hora de tomar banho para o momento de lazer do dia, eles saem por volta das 5 da tarde e vão para algum barzinho, e a regra da padaria vale também para os barzinhos que eles frequentam, apesar que tem um que é preferência há mais de 10 anos, mas isso não os impede de conhecer novos lugares. Todos os dias os dois vão para um desses lugares, sentam na mesa de sempre e ali eles bebem, conversam sobre a vida, fazem amizade com os donos do estabelecimento, conhecem as pessoas que frequentam o local e sempre voltam pra casa com histórias diferentes. Eles fazem isso há mais anos do que eu me lembre e às vezes eu tenho curiosidade de saber onde mora essa criatividade para ter assunto todas as vezes que eles se sentam nessas mesas de bar. Depois do passeio como namoradinhos, eles voltam pra casa, jantam, e logo se preparam para dormir e recomeçar toda a jornada no dia seguinte.

Confesso que quando eu vou visitá-los e observo essa rotina diária, me dá um certo cansaço de vê-los fazendo a mesma coisa todos os dias e continuarem felizes, como se eles não tivessem ideia do que vai acontecer naquele dia “misterioso” que eles já sabem como vai terminar, eu realmente fico intrigada com essa história.

Já pensei que diante do mesmo cenário diário, eles são personagens diferentes, ou talvez sendo os mesmos personagens de sempre, eles conseguem mudar o cenário diário, não dá pra saber o que acontece, a única coisa que eu consigo entender é o amor que existe entre eles, e isso é evidente pra qualquer um entender, até mesmo àqueles que diariamente vêm me dizer: “Ah, vi seus pais caminhando”. “Vi seus pais no supermercado”. “Vi seus pais no barzinho hoje.”

A forma de amar deles não está explícita em frases de “eu te amo”, ou em presentes caros, está no cuidado diário que um tem com o outro, está na maneira que se respeitam, que se ouvem, que fazem tudo fazer sentido quando a gente não acredita mais no amor. Por tantas vezes eu achei que não encontraria o verdadeiro amor, ou que eu não merecia, mas todas as vezes que olho pros meus pais, eu sei que o amor está vivo e está em algum lugar, e por ver a forma como eles se tratam, já afirmei pra mim que eu não mereço menos do que aquilo que eu vejo desde quando eu nem entendia o que era amor, o que era família. Talvez um dia eu o encontre!

O sentimento está presente em qualquer momento, até mesmo quando eles discordam, ou quando discutem e nos dez minutos seguintes já estão conversando como se nada tivesse acontecido. Acho incrível algo entre eles que é a seguinte situação: enquanto meu pai dirige, minha mãe sempre senta ao lado dele, então quando chega em alguma avenida, antes de atravessar a rua, ele olha pro lado da janela dele, e ao invés de checar o lado da janela da minha mãe pra ver se vem carro da outra direção, ele simplesmente pergunta pra ela se pode ir sem nem olhar pro lado, e ele só segue em frente quando ela diz “pode ir”. Desconfio que confiança em um relacionamento seja isso.

Provavelmente esse texto soou bem piegas, mas eu te convido a passar um dia com meus pais e constatar tudo isso. Não dá pra negar, eles conseguiram transformar a rotina em descoberta, como se cada novo dia tivesse sabor de fruta mordida, como se não se conhecessem há 3 décadas e precisassem se conhecer todos os dias. Uma amiga que os viu juntos por algumas vezes costuma dizer que eles parecem “família de comercial de margarina”, a única diferença é que eles são completamente reais, e se tiver alguma dúvida disso, é só passar pelo barzinho do Seu Luís por volta das 6 da tarde que você terá certeza do que eu estou dizendo.  

 

Todos os direitos reservados ao autor. Texto original e exclusivo cedido gentilmente pelo autor ao Portal Orla Notícias  Orla 2018®

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