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⟳ Atualizada em: 06/07/2020 13:37

Por Daniella Gallas BBC Brasil em Londres

Três levantamentos divulgados diariamente no Brasil têm tentado dar a fotografia da pior pandemia do século 21. O primeiro deles é o portal Painel Coronavírus, do governo federal. Os outros dois são iniciativas das secretarias estaduais de Saúde e de um consórcio de órgãos de imprensa — ambas lançadas em meados de junho, quando o governo federal interrompeu a divulgação de dados por alguns dias, provocando dúvidas de diversos especialistas sobre a veracidade dos números que vinham do Ministério da Saúde.

Um mês após a polêmica, os três portais têm apresentado estatísticas razoavelmente parecidas, com apenas pequenas discrepâncias.

Mas, mesmo assim, ainda existem muitas dúvidas sobre a confiabilidade desses números — devido a uma série de deficiências na forma como os casos e as mortes são contabilizados.

Essas imperfeições elevam consideravelmente o risco de os números oficiais sobre infectados e mortos por covid-19, tanto no Brasil como no resto do mundo, estarem subestimados. Em outras palavras, podem estar pintando um quadro distorcido da realidade.

Um estudo do Laboratório de Inteligência em Saúde da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, ligado à Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, estima que o Brasil poderia estar próximo de atingir a marca de 9 milhões de pessoas com covid-19 — sugerindo que pode haver uma margem de erro de até 500% nas estatísticas oficiais.

Os pesquisadores partem da noção de que não há testes suficientes feitos no Brasil para se determinar o número de infectados com o Sars-Cov-2, o vírus causador da covid-19.

Assim, eles usam dados da Coreia do Sul — país com um dos melhores sistemas de exames de covid-19 do mundo — para calcular a taxa de letalidade da doença, que é a quantidade de pessoas que morrem em proporção à quantidade que fica doente.

Assumindo que essa taxa de letalidade da doença seja fixa para todo o mundo — ou seja, que a covid-19 mata a mesma proporção de pessoas em todos os países —, eles calcularam o total de pessoas contaminadas com covid-19 no Brasil usando essa taxa fixa e o número de óbitos oficiais no país, que seria mais confiável do que apenas o registro de casos da doença.

Alguns ajustes pontuais foram feitos, considerando diferenças nas pirâmides etárias dos dois países e tempo médio entre internação e óbito. Foi usando essa “engenharia reversa” que eles concluíram que o Brasil pode estar com até seis vezes mais casos do que mostram as estatísticas oficiais.

Demógrafos e cientistas  dizem não acreditar que exista um esforço intencional do país de subnotificar os casos, mas que diversos problemas do país — alguns deles comuns em diversas outras nações que enfrentam a pandemia — dificultam a compreensão da dimensão real da crise do coronavírus.

Mas afinal, quais são esses problemas? Por que é tão difícil estabelecer números precisos sobre casos e mortes por covid-19 no país?

  1. Digitação e transmissão de dados

Os sistemas para se registrar mortes de covid-19 foram montados especialmente para a pandemia, sem haver uma padronização entre prefeituras e Estados de como coletar os dados.

Antes da covid-19, já havia algumas ferramentas para ajudar o Brasil a entender o quão grave é o quadro de doenças respiratórias no país, como o Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe), do Ministério da Saúde, e o InfoGripe, da Fiocruz. Mas esses sistemas trabalham de forma agregada com os dados, sem conseguir discriminar com precisão quais casos estão ligados a covid-19.

Os números da covid-19 que estão sendo noticiados diariamente nos portais oficiais são compilados através de um “telefone sem fio”. Diariamente as prefeituras entram em contato com hospitais, postos de saúde e clínicas para perguntar sobre o número de casos e mortos em cada lugar. Esses dados são compilados e repassados aos governos estaduais, que agregam os números de todos os municípios e os enviam ao ministério da Saúde.

Já houve episódios em que o governo federal precisou corrigir dados devido a erros de digitação. E não há nenhuma garantia de que os números oficiais divulgados atualmente não tenham falhas de digitação que ainda não foram detectadas.

Também existe um atraso nesse telefone sem fio. Um pesquisador disse à BBC News Brasil que os números nacionais que estamos vendo em um determinado dia provavelmente são compilações de dias anteriores que só chegaram à ponta de cima do sistema — o Ministério da Saúde — com alguns dias de atraso.

  1. Qualidade e quantidade de testes

O maior obstáculo para se conhecer os números reais ainda está na testagem de pessoas, não só no número baixo de testes disponíveis, como também na qualidade desses exames.

Mesmo os testes mais confiáveis, os chamados RT-PCR, são limitados, pois detectam apenas pessoas que estão com a doença no momento do exame — e não os recuperados, que deveriam estar na estatística de total de casos.

Há também o risco de o exame não detectar o vírus em pacientes doentes, pois ele pode não estar exatamente na parte do sistema respiratório de onde foi colhida uma amostra.

“O teste do PCR detecta, na melhor das hipóteses, de 70% a 80% dos casos”, diz Márcio Sommer Bittencourt, médico do centro de pesquisa clínica e epidemiológica do hospital universitário da USP.

E existe o problema da quantidade. O Brasil está testando poucas pessoas para covid-19.

É possível comprovar isso através da taxa de positividade — que mede quantas pessoas tiveram exame positivo em proporção ao número de pessoas testadas.

O Brasil tem uma taxa próxima de 40%, o que significa que se está testando apenas os casos graves na maioria das vezes, de pessoas que já estão na rede hospitalar. Em uma pandemia, mesmo a população sem sintomas deveria estar sendo testada.

A taxa ideal de positividade, segundo a Organização Mundial da Saúde, é de 5%, diz Domingos Alves, do Laboratório de Inteligência em Saúde da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Ou seja, que apenas 5% dos testes feitos em uma população dessem positivos, e os outros 95%, negativos.

“Os testes no Brasil são feitos quase que apenas nos internados. Nós estamos no escuro, estamos míopes sobre essa pandemia”, afirma ele.

Além disso, há falta de rastreamento. Alves conta que, na maioria dos casos, nem mesmo as pessoas que tiveram contato recente com os pacientes de covid-19 estão sendo testadas.

Bittencourt aponta que o governo federal não tem sido claro na divulgação do número de pessoas testadas. Há boletins e notícias do governo falando em “números de testes” sem especificar se esses testes já foram de fato realizados ou concluídos.

  1. Registro de mortes

A falta de testes prejudica a compreensão sobre o número de casos totais no Brasil. Mas outro número crucial desta pandemia também pode estar sendo subnotificado segundo os cientistas: o de mortes causadas pelo coronavírus.

E para se chegar a uma aproximação razoável da quantidade de mortos da pandemia, não é preciso olhar necessariamente apenas para os números que estão sendo enviados pelas prefeituras e Estados.

Cientistas em diversos países têm preferido observar o “excesso de mortes”. O número de mortos em um determinado país não costuma sofrer variações grandes de um ano para o outro — apesar de haver grandes variações sazonais (julho costuma ser o mês com o maior número de mortes no Brasil).

Neste ano, com a pandemia, há muito mais gente morrendo todos os meses em comparação com a média dos últimos cinco anos — e demógrafos dizem que se pode concluir com razoável precisão que o coronavírus é o grande responsável por essas mortes, já que é o único fator novo.

Mas calcular as mortes em excesso é um problema no Brasil devido a outro obstáculo: os cartórios.

Bittencourt explica que o sistema brasileiro de registros gera vários atrasos. A família tem até 24 horas para registrar a morte de uma pessoa em um cartório. O cartório depois tem alguns dias para notificar a central nacional de registros dessa morte.

Em tese, a causa da morte deveria constar no registro do cartório, mas há diversos problemas que dificultam isso. Em muitos casos, o exame que comprova que o paciente tinha covid-19 só fica pronto dias depois que ele já foi registrado como morto. Como o atestado de óbito precisa ser gerado logo após a morte, não há como esperar por um dado mais preciso. Além disso, há municípios pequenos em que o atestado sequer é produzido por um médico.

As diversas imperfeições e atrasos do sistema levam Alves a acreditar que o número de óbitos que estamos vendo no noticiário representa apenas 60% do total real de óbitos. Com isso, em vez de 64 mil mortes, a covid-19 seria responsável por 106 mil mortes no Brasil até agora.

O estudo do laboratório de Alves usou o então número oficial de 60 mil mortes — e não o que ele acredita ser o real, de cerca de 100 mil — para estimar o número real de casos de covid-19, que segundo ele estaria se aproximando de 9 milhões de infectados.

“Nossos modelos sempre tentam errar para baixo para ninguém nos acusar de exagerar o impacto da pandemia.” Fonte: BBC Brasil em Londres

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