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⟳ Atualizada em: 02/03/2020 14:17

Por: Marcus Pestana

Reza a lenda que o ano só começa no Brasil após o Carnaval. O feriado mesmo era sempre um período de trégua. Mas o Brasil anda tão esquisito, que 2020 desmentiu a tradição.

Por um lado, o fantasma do coronavírus colocando a economia mundial em compasso de espera, colocando em risco a incipiente recuperação brasileira de sua maior recessão. Dólar subindo, bolsa caindo, crise na segurança pública ameaçando o equilíbrio fiscal. O otimismo recebendo um balde de água fria.

Por outro, no mundo da política, atitudes e frases mal colocadas ganhando corpo na imprensa e nas redes sociais, alimentando o clima de radical polarização. Seria impensável, em outros tempos, uma crise política-institucional se esboçar em pleno carnaval brasileiro. A cultura antidemocrática que hoje inspira milhões de brasileiros, materializada numa frenética convocação de uma manifestação contra o Congresso Nacional e a nossa Corte Constitucional.

Diante disso, fui tomado por um sentimento saudosista. Num quadro onde a chamada “velha política” se afigura como verdadeiro palavrão, senti saudades da velha e boa política.

Sou da geração da redemocratização. Nasci para política, dentro da cultura de esquerda, predominante no movimento estudantil, mas que tinha referência em figuras como Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, que nos lideraram na travessia para a democracia. Eram lideranças forjadas pela experiência histórica, firmes nas convicções, mas vocacionados para a promoção do diálogo e do entendimento, sem tibieza, mas abertos sempre à construção de consensos progressivos.

Eram capazes de produzir frases como “A verdade não tem proprietário exclusivo e infalível”, “Em política, até a raiva é combinada”, “Não são os homens, mas as ideias que brigam”. Mas o espírito conciliador dos dois estadistas não os esquivava de atitudes fortes em defesa da democracia: “A persistência da Constituição é a sobrevivência da democracia… Temos ódio e nojo à ditadura… A sociedade foi Rubens Paiva e não os facínoras que o mataram” disse Ulysses na promulgação da Constituição em 1988. “Canalha, canalha!” foi a resposta do líder da oposição, Tancredo Neves, ao Presidente do Senado que declarou a vacância da Presidência em 2 de abril de 1964. Que falta fazem os dois!

Governos e líderes são passageiros. As instituições, a sociedade, os princípios democráticos são permanentes. A política é meio, não fim em si mesmo. Partidos e seus líderes são ferramentas, mas acima deles está o interesse público e nacional. Após a redemocratização já tivemos governos e líderes de centro, centro-esquerda, esquerda, direita e isso é um ativo da democracia brasileira.

O embate e a polarização saudável são legítimos. Mas um consenso inarredável e absoluto deve reinar: o respeito às regras democráticas do jogo, às instituições republicanas e à Constituição. Não faz sentido tentar desmoralizar o Congresso Nacional e o Supremo. Mais do que as regras escritas, deve prevalecer a cultura democrática validando a legitimidade de todos os atores políticos e a convivência plural e respeitosa entre as partes   divergentes.

O carnaval de 2020 deixou um clima desconfortável num momento delicado do país. Que os dois líderes da redemocratização nos iluminem e que consigamos encontrar os caminhos para a construção da grande nação com que sonhamos.

 

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