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O mercado de “Fast Fashion de Instagram” no Tocantins

Atualizada em: 11/10/2017 14:10

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Por Pedro Monteiro

Talvez você não conheça esse termo Fast Fashion, mas com certeza é um consumidor. Na tradução literal, o termo significa “moda rápida”, moda descartável. É um padrão de consumo e criação acelerado, buscando atender as tendências imediatas para o público. O descarte é igualmente rápido, o que gera certo preconceito entre fashionistas e designers mais conservadores. Esse modelo de comercialização vem da Europa, e não implica apenas em peças de baixo preço. É necessário atender ao perfil dos consumidores, e há uma loja do ramo para cada um deles, com variedades de preços e qualidade dos produtos. No caso de produtos com valor alto, o diferencial não chega a ser a rapidez, mas o alvo. Preços altos requerem mais tempo na fabricação, mas o descarte continua igual.

O preconceito se deve muito a democratização que o nicho trouxe para a moda e para quem não tinha dinheiro para consumir as peças que via na passarela: agora quem escolhe o que vamos usar somos nós.  Em um desfile, os modelos são apresentados, mas nem todos irão para as vitrines. Apenas as roupas que caem no gosto do público são escolhidas e produzidas.

O motivo pelo qual o mercado de Fast Fashion europeu não tem interesse em outros países (Brasil, por exemplo), é que a produção deve atender ao público local, uma vez que não há tempo para exportação e pesquisa externa. Para isso temos nossas próprias redes de lojas que atendem muito bem aos consumidores brasileiros.  A consultora de moda Kassandra Valduga vê essa popularização como algo positivo: “Na questão do consumo, as Fast Fashion como lojas de departamentos que entraram na corrida dos lançamentos instantâneos nos últimos anos, têm o papel de democratizar a moda, de colocar um produto com valor mais acessível, mas com informação de moda, atendendo uma demanda de consumidores ávidos por novidades. Hoje elas dividem mercado com as Fast Fashion online também”.

A regionalização da produção traz mais lucros. Há alguns anos, as lojas de departamento brasileiras fabricavam suas peças em outros países, como a China, e sofriam pelo atraso na chegada das coleções no tempo estipulado. Isso gerava prejuízo e empacava as vendas, pois quem iria querer comprar uma roupa de inverno no verão? Com produções locais, tudo é agilizado e as roupas ficam menos tempo do que o esperado nas araras.

O Tocantins não possui seu próprio mercado de moda, e sequer há dados sobre a movimentação financeira dele aqui.  Mas nem por isso o tocantinense deixou de tentar se aventurar e empreender. Se o sinônimo de Fast Fashion é rapidez, não demorou muito para que a internet se tornasse uma alavanca indispensável nas vendas. Pela falta de opções aqui, muitos viram isso como uma chance de inovar e fazer dinheiro.  A primeira delas foi Letícia Coelho, dona de uma das maiores lojas do nicho aqui no estado, que já conta até com espaço físico e marca própria. Perguntamos a ela como foi transformar o Instagram em um negócio rentável, e todo o processo de construção de público e marketing pessoal.

“Sempre acreditei no potencial da cidade, nas pessoas que moram aqui. Nunca enxerguei com esses olhos de dificuldade e sim como uma excelente área onde poucos acreditavam. Abracei isso como missão. Meu maior objetivo é ser eu mesma, ser transparente e realista. Há mais de cinco anos trabalho com vendas de vestuário feminino, então a cada ano, fui conhecendo cada uma das minhas clientes e entendendo as necessidades do mercado.” Sobre as vendas em um ano de crise e estagnação econômica, Letícia diz que foi o seu melhor ano.

“Nunca tive medo de arriscar. Sempre acreditei no potencial da cidade.” Foto: Arquivo Pessoal

O diferencial das vendas no Instagram é a interação com o consumidor, e a necessidade de estar sempre alimentando o perfil com novidades. Os consumidores desse tipo de mercado não buscam apenas uma peça de roupa, e sim um estilo de vida. Leticia está sempre compartilhando suas viagens internacionais e faz de sua loja seu blog pessoal, onde aparece sempre usando os looks que vende. Sobre dizer que não há uma estratégia de marketing, a estratégia é ser ela mesma, e mostrar para suas seguidoras a sensação de estar usando determinada roupa em algum lugar ou ocasião especial.

Nathália Torres, dona de uma loja, também foi uma das pioneiras no ramo aqui em Palmas, e começou junto com Letícia a construir uma referência para as vendedoras que viriam a seguir. “Eu revendo uma única marca, e me dividia entre as vendas da loja, a faculdade de direito e o estágio na procuradoria. Comecei vendendo no meu trabalho, logo depois passei a utilizar o Instagram, e só depois de 4 anos trabalhando com vendas, montei o espaço fisico. Eu acredito que a cada dia que passa, Palmas abraça ainda mais essa ideia, e que daqui a um tempo, as lojas adotarão as mídias digitais como principal meio de comunicação com seus clientes. Ela será a vitrine principal. “

“No começo, eu mesma era minha modelo (…) Sinto que se paro de postar, perco seguidores. Foto: Arquivo Pessoal

Segundo Kassandra Valduga, a internet mudou a comunicação e as relações de consumo. “Hoje acontece um desfile em Paris e é possível acompanhar pelo celular. Consequentemente, as compras online são uma realidade, além de trazer comodidade. Esse consumo se espalhou para as redes sociais. Até quem tem loja física tem feito um grande investimento em mídias socais e vendas por Whatsapp. Vejo como uma nova economia e acredito que tende a crescer, porque você compra por um clique. Mas requer investimento, estratégia de vendas e direcionamento de público, é uma nova forma de vender. A oferta de moda é imensa, cabe ao consumidor selecionar o que mais se adequa ao seu estilo.”

“Vejo como uma nova economia e acredito que tende a crescer, porque você compra por um clique”. Foto: Arquivo Pessoal

Patrícia Fregonesi, consultora e designer de moda, explica que apenas o espaço físico para uma loja aumenta o custo do produto, e limita os horizontes de vendas.

“Hoje a gente não precisa de espaço físico, precisa de estratégia”. Foto: Arquivo Pessoal

“As vendas nas redes sociais são inovadoras, e a há pessoas (consumidores) que vestem e divulgam os produtos fora dos perfis das lojas. Você visualiza a peça dentro de um contexto, de um corpo real, e é isso é o diferencial na estratégia.” É o chamado “see now, buy now” (veja agora, compre agora), recentemente adotado nas semanas de moda de todo o mundo todo. “Você não precisa mais esperar seis meses para ter determinada peça. A rua manda na moda, as redes mandam na moda”. Patrícia lembra que o Tocantins é o centro do país, e essa logística de vendas pode ser ainda mais fácil, e deve-se pensar nas diferenças de gostos, corpos, temperaturas do Brasil. “É possível atender qualquer público, de qualquer lugar”.

Verônica Marinho resolveu trazer algo com sua cara para o Tocantins. Ela foge do Fast Fashion. Nascida em Passo Fundo, RS, viu que faltava algo mais artístico e “musical” aqui. As roupas de sua loja, tem muito a ver com sua identidade visual. “Não sigo tendências, e isso pode até ser algo ruim do ponto de vista empresarial”. Depois de dez anos com sua loja em Passo Fundo, a lojista veio para o Tocantins. Foi um recomeço para Verônica, e por questões de logística e localização que tivesse mais a ver com seu negócio, ela resolver trabalhar em casa. “Minha loja tem a minha cara. Eu vendo o que eu gosto, o que uso. Por trabalhar em casa, tenho que focar muito no Instagram e na divulgação – a foto certa, a produção certa”.

“Eu vendo o que eu gosto”. Foto: Arquivo Pessoal

A designer Sara Fernandes apostou na criação de peças exclusivas para sua marca, “o público é exigente na forma de se vestir, e as pessoas não procuram somente uma peça que as vistam, mas uma expressão da sua personalidade. Ter peças próprias me permite materializar o conceito de estilo que quero apresentar, é um diferencial e uma grande motivação. Vejo como público todas as pessoas que vistam a marca e se sintam completas.

“Sempre gostei de me vestir de uma forma inusitada até o final da adolescência – cortar as roupas de todo mundo da casa, e então me profissionalizei na área, continuo cortando as roupas de todo mundo da casa”. Foto: Arquivo Pessoal

Sara busca conhecer seus clientes e absorver o máximo de aprendizado desse contato. As vendas para as demais localidades estão disponíveis através da fanpage no Facebook e no Instagram. “O projeto é inaugurar o e-commerce da marca, investir nas mídias digitais e potencializar a visibilidade e o acesso aos produtos por qualquer lugar do País e até mesmo exterior. Além de promover ações próprias quero buscar parcerias com outras empresas, pessoas e eventos de moda, arte, cultura, entre outros.

Uma modalidade de mercado tão nova em um estado tão novo é, sem dúvida, promissora. Essas meninas viram aqui uma oportunidade para inovar e movimentar a economia, como Sara, que gera empregos com sua confecção para a marca, e Letícia, com sua equipe de vendedores. Suas seguidoras gastam muito dinheiro para ter esse estilo de vida retratado em suas redes sociais, e tem as jovens empreendedoras como espelho na vida pessoal e profissional. Além de democratizar algo outrora praticamente inalcançável para quem não vive nos grandes centros urbanos, em alguns anos elas serão vistas como as percussoras do e-commerce de moda rápida no Tocantins, e quem sabe, nosso estado, que já é ponto estratégico, pode ser um referencial na área.

 

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