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Nós três e o tempo

Autoanálise, aprendizado e não-linearidade do tempo, quando só temos a nós mesmos para recorrer

Atualizada em: 16/11/2017 08:45

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Sempre que passamos por situações ruins nos perguntamos se vai demorar passar. Depois que passa, dá vontade de voltar no tempo e dizer para o seu eu do passado ter calma, que tudo vai ficar bem. Quando não passa nunca (esse eu não está nem lá nem cá), não sabemos a qual dos dois eus recorrer. Então começamos um monólogo à trois. Eu, eu e eu. Três tempos e três pessoas diferentes. Dizem que o presente não existe, que cada passo seu fica no passado antes que você possa pensar em registrá-lo. O agora, então, é o passado. Cada letra que escrevi aqui ficou no passado antes mesmo de formar uma palavra. O futuro é só uma desculpa para continuarmos seguindo em frente. A gente caminha e aprende. Mas precisamos do agora. Tem coisa que nem a ciência pode nos tirar. Se não acabou, é agora.

O ano nem acabou e já tenho todo um balanço pronto na minha cabeça. Gostaria que o meu eu de um ano atrás tivesse me escrito uma carta, perguntando como estão as coisas, se ficou tudo bem. Há um ano eu vivia a pior experiência que alguém (até então) sem o mínimo de autoestima pode viver: a quebra forçada da dependência emocional que possuía por alguém. Eu não fazia ideia do que aquilo tudo me traria, para o bem ou para o mal. O fim de algo muito bom para quem nunca teve nada parecido é semelhante ao luto: você não sabe o que fazer até ser forçado a lidar com aquilo, mas até ver que tem que lidar, de fato, você passa por todos os círculos do inferno. A culpa foi minha, que nunca me botei acima de nada, tampouco percebia que fazer isso não é ser egoísta. Se o meu eu do passado visse que estou escrevendo este texto, ele riria de mim, pois tal pensamento não poderia sair da cabeça de alguém que preferiu perder tudo a se ajudar.

Mas o eu de agora, que no passado foi o eu do futuro, sente que está longe de tudo melhorar. Ele só quer que o eu do passado veja que, apesar de toda a mudança, não vai ser fácil, e que ele também espera conhecer uma versão realizada de si. Eu pediria a ele que desmoronasse menos, que fosse mais firme, que não tivesse desistido tão fácil da sua felicidade. Eu diria a ele que as coisas que ele achou que voltariam não voltaram, e nem vão, e que a vida não é uma história onde tudo se resolve no final, as coisas não se fecham como em um círculo. O carma é invenção. O final é o final e pronto. O que vem depois é muito pior. Nada do que ele quis aconteceu da maneira como ele queria, e ele vai ter que ser firme, ter equilíbrio, porque a paz que ele procura ainda não chegou.

Para o meu eu do futuro, eu pergunto se de fato as coisas serão melhores. Não estou reclamando, elas estão se encaminhando, da sua forma. Pergunto se ele riu disso quando terminou. Sei que vai terminar, pois finalmente dei adeus ao passado. Foi o primeiro passo. A cada passo eu sou outro, e aceno para quem ficou. Pergunto a ele se todas as coisas ruins o fazem rir pela importância desnecessária que ele deu a elas, ou se ele sequer chega a sorrir porque seu coração está endurecido. Pergunto se ele ainda é o mesmo ou se mudou tanto que não me reconheceria se me visse na rua. Há poucos dias me deparei com uma figura humana de plástico, em uma estação de ônibus, e imaginei como deveria ser para ela estar sempre ali parada, vendo todo mundo passar. Ela não ficava para trás porque estava sempre ali, mas também não ia para frente. Ela não tinha a quem recorrer quando precisasse de uma conversa dentro de sua cabeça. Ela era eu. Não vou ser hipócrita e agradecer por coisas ruins terem me transformado em alguém melhor, mas se, há um ano, tudo que achava que era importante para mim não me tivesse sido tirado, eu ainda seria aquela pobre réplica humana, quebradiça, descartável. Hoje tenho a mim mesmo para contar, e isso basta.

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