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⟳ Atualizada em: 08/03/2021 15:03

Não precisaria nem de números. Basta prestar atenção nas imagens das longas filas na televisão e nos jornais para notar que o público da campanha de vacinação contra a Covid-19 no Brasil é, até aqui, majoritariamente feminino.

É que, de fato, as mulheres representam o dobro dos homens entre os imunizados. Foram 5,8 milhões de doses aplicadas nelas e 2,8 milhões injetadas neles até a última sexta-feira (5), incluindo as primeiras e segundas doses, segundo o Ministério da Saúde.

Isso pode ser explicado essencialmente por dois outros cálculos. Primeiro, elas são maioria entre os idosos: até a faixa dos 39 anos, a proporção de homens e mulheres na população é praticamente igual, mas a partir daí elas vão prevalecendo até se tornarem 68% dos brasileiros acima de 90 anos.

Segundo, elas são maioria entre os trabalhadores da saúde, profissão ligada ao cuidado: em média, oito a cada dez agentes comunitários, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem do país são profissionais do sexo feminino, segundo números do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Só o perfil dos médicos é mais masculino.

Foto: Secom/Palmas.

Esses dois grupos prioritários foram os mais imunizados nesta primeira fase em números absolutos. Até sexta, os profissionais da saúde correspondiam a quase 60% do público alvo, e os idosos acima dos 80 anos, 26% -porcentagens que devem diminuir à medida que a campanha avançar.

Mas por que as mulheres são predominantes nesses segmentos? Para a demógrafa Dalia Romero, coordenadora do grupo de estudos sobre envelhecimento da Fiocruz, as respostas a essa pergunta não são positivas.

“O Brasil está entre os países com a maior desigualdade na proporção entre homens e mulheres no mundo. Isso não é uma boa notícia, é triste para as mulheres, que ficam cada vez mais sozinhas e viúvas, sem direito a aposentadorias, gerando vários outros problemas”, diz.

Ela interpreta que, no campo social, essa desigualdade vem principalmente de outras três causas, e a violência é uma das mais importantes. Homicídios tiraram a vida de 149 homens (ante 12 mulheres) por dia em 2018 no país, mostra o “Atlas da Violência” mais recente.

Eles também são vítimas mais comuns das chamadas “mortes evitáveis”, aquelas total ou parcialmente preveníveis ou tratáveis, como tabagismo, certos tipos de câncer, diabetes ou até causas externas como acidentes de trânsito e os próprios assassinatos.

Em terceiro lugar, parte dos especialistas aponta que os homens têm menos práticas de cuidados médicos, como a realização de exames e consultas. Mas Romero defende que essa é a consequência de um outro problema, e não apenas a causa.

“Essa visão culpabiliza o homem em si, como se ele não quisesse se cuidar. Eu prefiro falar que a maior mortalidade masculina acontece especialmente em países com atenção primária fraca. Há pesquisas mostrando como o aumento da estratégia de família diminui a mortalidade por causas evitáveis, onde eles são a maior parcela”, explica.

Ela vai além: “Trabalhando com envelhecimento, vejo tudo sempre como um ciclo de vida. A sociedade não vincula o homem ao cuidado. Quando a criança nasce, quem tem direito a cuidar do filho? A mulher. Quem normalmente falta no trabalho para cuidar dos pais? A mulher”, desenvolve.

A morte precoce do homem, portanto, também seria resultado da própria cultura do machismo e da violência, que sugere que a figura masculina tem que ser forte. “A sociedade tem que permitir que ele cuide de si e do outro”, afirma.

Romero lembra que, apesar de não serem divulgados dados nacionais divididos por cor, a imagem das filas da vacinação contra o coronavírus também é sempre mais branca do que negra. Ter 90 anos no Brasil, diz, é um luxo muito menos frequente entre pretos e pardos.

Além das variantes comportamentais e sociais, porém, há as diferenças biológicas: fatores genéticos, hormonais e imunológicos também podem interferir na mortalidade entre homens e mulheres.

Uma dupla de pesquisadores da Universidade Yale (EUA) explorou essas distinções no caso da Covid-19 em artigo na revista especializada Science em janeiro. Homens representam 46% dos contaminados, mas 55% dos mortos pelo vírus no Rio Grande do Sul, por exemplo.

No campo genético, homens possuem os cromossomos sexuais (estruturas do núcleo celular) X e Y, de modo geral, enquanto as mulheres carregam dois cromossomos X. Esse último abriga alguns genes importantes para a reação a invasores virais, portanto ter dois dele poderia significar uma proteção maior.

No campo hormonal, o estrogênio, um dos principais hormônios femininos, parece regular a presença dos receptores –”fechaduras” moleculares– usadas pelo novo coronavírus para invadir as células, o que poderia ser outro fator protetor para as mulheres.

Por último, as mudanças no sistema imune masculino durante o envelhecimento acontecem por volta de cinco anos antes do que no organismo feminino, tornando-os mais vulneráveis a processos inflamatórios -o que é exacerbado durante casos graves de Covid-19.

Quanto à vacinação, a demógrafa Romero lembra que a proporção entre os sexos começará a se igualar à medida que o país for imunizando grupos mais novos: “Vai equiparar quando vacinarmos as pessoas de 30 anos, em que a proporção é de um homem para uma mulher”. Esse horizonte, porém, ainda está longe.  Fonte: Brasil ao Minuto.

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