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⟳ Atualizada em: 07/04/2021 15:23

O percentual de pessoas sem nenhum fator de risco entre os mortos por covid-19 no Brasil sobe há 6 meses e chegou a 27,4% em março. É o número mais alto desde maio de 2020 (32%), quando havia menos protocolos para lidar com pacientes nos hospitais. Nos últimos 6 meses, a alta foi de 7,5 pontos percentuais.

Ou seja, o agravamento da pandemia coincide com aumento da presença de pessoas sem doenças prévias entre os mortos.

Os dados são de levantamento feito pelo Poder360 em 295.834 registros de mortes por covid que têm informação sobre presença ou ausência de doenças pré-existentes no banco de dados do SUS. As informações vão de março de 2020 a 29 de março de 2021.

A maior circulação de pessoas jovens e sem doenças prévias contribui com esse cenário. Há outras razões, como a sobrecarga do sistema de saúde brasileiro.

“O grau de infecciosidade das novas variantes é muito alto. As pessoas sem doenças pré-existentes ou mais jovens circulam mais que os outros, estão mais expostas. E o jeito como elas têm chegado às UTIs contribui com o aumento de mortes. Já chegam precisando de ventilação mecânica, de diálise, de ECMO (pulmão artificial). Pacientes que chegam nessa situação também morrem mais“, diz o médico Ederlon Rezende, que faz parte do conselho consultivo da Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira).

A última vez que o percentual de mortos sem nenhuma comorbidade esteve tão alto foi durante a 1ª onda de contágios. Em abril e maio de 2020, 32% dos mortos não tinham condição pré-existente. Além de se saber menos sobre a doença naquele momento, os sistemas hospitalares do Norte e de algumas regiões do Nordeste entraram em colapso nos meses iniciais da pandemia.

“São locais de população mais jovem, sem tanta comodidade. Houve colapso em hospitais e mesmo pessoas que teriam mais chance de sobreviver morreram. A falta de recursos e de capacidade de atendimento acabou elevando as mortes de pessoas com menos fatores de risco naquele momento“, afirma Fernando Bozza, pesquisador da Fiocruz e chefe do Laboratório de Pesquisa Clínica em Medicina Intensiva do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas.

MAIORIA TEM COMORBIDADE

Embora esteja em queda nos últimos 6 meses, o percentual de mortos em março que já tinham alguma doença pré-existente é alto: 72,6%. Se considerarmos dados de todo o período da pandemia, 3 em cada 4 mortos possuíam alguma comorbidade.

O alto percentual joga luz à discussão sobre prioridade na fila de vacinação. No Plano Nacional de Imunização, só pessoas acima de 60 anos, trabalhadores de saúde e comunidades tradicionais (indígenas e quilombolas) estão à frente de quem tem doenças consideradas como fator de risco.

Nos últimos dias, porém, 5 Estados e o Distrito Federal começaram a vacinar forças de segurança e já se discute também passar professores na frente de grupos com comorbidades na fila da vacina.

Esse movimento é criticado por médicos porque ter fatores de risco é uma das condições que mais contribuem para o agravamento da doença e a morte. Muitos consideram fundamental imunizar logo esse grupo para esvaziar os hospitais.

De acordo com o levantamento , excluindo o grupo das pessoas acima de 60 anos do total de mortos por covid, 68% dos mortos tinham uma ou mais comorbidades.

“Não tem por que vacinar oficiais de forças de segurança ou mesmo professores antes das pessoas com comorbidades. Para reduzir a sobrecarga dos hospitais, é fundamental vacinar os grupos com fatores de risco antes“, diz Bozza.

O pesquisador da Fiocruz afirma que a lógica de vacinação segue critérios científicos. Trabalhadores da área da saúde estão na frente da fila para que não se perca força de trabalho para combater a pandemia e para que eles não espalhem o vírus nos hospitais. As pessoas acima de 60 anos são o grupo que mais sobrecarrega o sistema de saúde, mais tem complicações e mais morre. Depois deles, o grupos mais vulnerável e que mais pressiona os hospitais é o das pessoas com fatores de risco. Uma vez que esses 3 segmentos estejam vacinados, explica, a tendência é reduzir a pressão sobre os sistema de saúde e que os doentes possam receber melhor atendimento, diminuindo o número de mortos diários pela covid.

Os grupos de pressão de forças de segurança e de profissionais da área da educação argumentam que a maior circulação desses profissionais acaba aumentando também a taxa de infecção. Assim como Bozza, o médico Ederlon Rezende ressalta que a estratégia de distanciamento, hoje, é a maior arma para conter a circulação do vírus. “Temos de ser mais incisivos nas estratégias de distanciamento social. O exemplo [do lockdown] de Araraquara é muito instrutivo para todos“, diz.

Outra estratégia que países como Reino Unido vêm adotando para combater o colapso no sistema hospitalar é priorizar a distribuição da 1ª dose a todos os principais grupos de risco: trabalhadores da saúde, idosos e pessoas com comorbidades. A 2ª a dose, nessa lógica, seria atrasada para todos. “Como a administração apenas da 1ª dose já alivia normalmente os sintomas, isso contribuiria para desarmar o colapso do sistema de saúde e, consequentemente, diminuir de forma emergencial o número de mortes“, ressalta Bozza.

OS FATORES DE RISCO MAIS FREQUENTES

Dos quase 296 mil registros de mortos analisados , 125 mil indicam alguma doença pré-existente relacionada ao sistema cardiovascular. A 2ª condição mais presente nas pessoas que morreram é a diabetes: 31,4% de todos os óbitos por covid foram de diabéticos.

“As duas condições são também muito comuns na população brasileira como um todo, o que ajuda a explicar, em parte, a presença no grupo dos mortos por covid-19“, diz Bozza.

O médico afirma que há estudos indicando que o vírus usa um receptor ligado ao sistema cardiovascular, e que isso pode estar associado ao desenvolvimento de formas mais graves da doença em portadores de cardiopatias. Mas ressalva que ter apenas um fator de risco não aumenta tanto a chance de alguém ser hospitalizado.

“O risco maior é quando há mais de uma comorbidade. Nossos estudos mostram que quanto mais comorbidades as pessoas têm ao mesmo tempo, mais aumenta o risco. Às vezes as pessoas ficam assustadas porque têm uma hipertensão leve. Isso, se for um fator isolado, tem um impacto baixo“, detalha o pesquisador.

Obesidade (7,5% dos mortos), doença renal (6,2%) e doença neurológica (6,1%) estão entre as outras doenças mais frequentes.

Para Bozza, pessoas que têm, em conjunto, doenças cardiovasculares, diabetes e obesidade estão entre as que apresentam o maior risco de desenvolver a forma grave da doença. Fonte Poder 360

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