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⟳ Atualizada em: 11/05/2022 20:11

O resultado do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de abril, totalizando 12,13% em 12 meses, indica que a inflação no Brasil parece ter chegado ao seu pico, mas o combate a ela ainda pode ter imprevistos e desafios pela frente.

A alta de 1,06% foi a maior para abril desde 1996, mas também representou uma desaceleração em relação ao avanço de março, algo que já era esperado por parte do mercado.

A expectativa, segundo o especialista em economia Sergio Vale, é que os próximos números de inflação sejam menores, mas não tanto. Pelas projeções do economista, o IPCA ainda deve ficar acima dos 10% até os meses de agosto ou setembro.

A dificuldade de forçar a queda da inflação se mistura ainda com uma série de incertezas. Pensando na influência sobre o indicador, a maior é a possibilidade de um novo reajuste nos preços da gasolina pela Petrobras, que poderia levar à necessidade de subir os juros ainda mais que o previsto pelo Banco Central.

Inflação em abril

André Braz, coordenador dos índices de preços da FGV, avalia que o resultado de abril veio dentro do esperado, com forte influência de combustíveis e alimentos. Ele ressalta que o dado mensal veio melhor que o IPCA-15, considerado a prévia do índice.

O motivo, afirma, foi a decisão em 16 de abril de substituir a bandeira escassez hídrica nas contas de luz pela verde, sem taxa adicional, reduzindo a pressão sobre os preços. Os combustíveis subiram, mas menos que em março, também ajudando no resultado.

No lado negativo, Braz cita o aumento na quantidade de produtos e serviços com alta de preços, de 75% para 78%, indicando um “espalhamento forte de pressões inflacionárias, para além dos destaques”.

“Isso mostra que a inflação está presente em praticamente todo o orçamento familiar. É um sinal de alerta para o Banco Central, porque a disseminação mostra persistência da inflação”, diz.

Outro destaque negativo foi o setor de alimentação, que avançou para mais de 10% no acumulado. Em abril, as maiores altas foram do tomate, leite e batata, mas Braz observa que o trigo ainda é o grande vilão do setor, impactando seus derivados, como o pão.

Por trás dessa alta, o economista cita a elevação nos preços dos combustíveis e da energia desde 2021, encarecendo produção e transporte, além dos efeitos da guerra na Ucrânia, que fez os grãos e os fertilizantes dispararem.

Julia Passabom, economista do Itaú Unibanco, liga a alta também a características sazonais de algumas culturais, em que fenômenos como chuvas podem afetar a produção e subir os preços. Nesses casos, a tendência é de uma devolução da alta quando a situação se resolve, até entre um mês e outro.

O banco ainda projeta a inflação de alimentos nos dois dígitos em 2022, o que deve levar ao quarto ano seguido de alta no segmento.

Para ela, o resultado de abril mostra uma inflação alta e disseminada, que poderia ter sido ainda pior se não fosse a queda nos preços de energia. Um dos destaques negativos, diz, é a variação positiva no chamado núcleo da inflação  que exclui itens mais voláteis como alimentos e energia , sem sinais de desaceleração.

Sergio Vale, que também é economista-chefe da MB Associados, avalia que a inflação de abril mostra uma nova aceleração, mas que mesmo assim deve ser o pico da elevação no Brasil, como previsto anteriormente pelo presidente do BC, Roberto Campos Neto, e com uma tendência de desaceleração lenta.

Próximos meses

Vale afirma que o cenário inflacionário atual ainda é pressionado, e que não se pode descartar novas surpresas que pressionem a inflação para valores maiores que o de abril.

“Não é simples de desinflacionar, e demanda esforço maior do Banco Central porque está sozinho, a política fiscal não ajuda, há discussões sobre postergar aumentos de preços que não devem avançar, mas colocam riscos”, diz.

Ele também cita a expectativa de novas altas na alimentação devido aos efeitos da guerra e um grau alto de disseminação como riscos que podem piorar o quadro no futuro. Nesse sentido, a MB Associados projeta mais uma alta de 0,5 ponto percentual nos juros além da sinalizada pelo BC para junho.

Ele espera que o Comitê de Política Monetária (Copom) da autarquia ainda sinalize preocupações com a inflação na reunião de junho, e deixe em aberto a possibilidade de uma outra elevação, sem falar de fim do ciclo atual.

Em específico para o mês de maio, Vale afirma que a valorização do dólar em abril e começo de maio, voltando aos R$ 5, deve impactar nos preços, com uma inflação ainda pressionada.

Já Braz considera que a inflação desacelerará em maio, a menos que ocorra um novo reajuste nos preços da gasolina pela Petrobras. O impacto direto da alta do diesel, anunciada na segunda-feira (9), tende a ser menor, e o indireto é mais espalhado e difícil de medir.

“A tendência é desacelerar, mas a questão é que, apesar da desaceleração, ela vai ser mais lenta que o imaginado, porque as expectativas de inflação ao fim de 2022 estão subindo, fomos de 5% para mais de 8% no Focus desde o início do ano”, diz.

Nesse cenário, o Banco Central pode acabar precisando elevar os juros ainda mais para conter as expectativas. Se a alta do diesel levar a elevações no transporte público, essa possibilidade ganha ainda mais força.

Mesmo com um cenário de incertezas, o economista ainda aposta em um aumento de 0,5 p.p. na reunião de junho do Copom.

Passabom, do Itaú, também vê o pico inflacionário em abril, mas alerta que a definição do mês de pico já foi revista anteriormente.

“Se tiver piora no petróleo, e tiver reajuste, o repasse foi bem forte e rápido na última vez, e isso pode poderia puxar a inflação de maio. É um risco”, diz.

O banco também espera que o Banco Central acabe reforçando o combate à inflação, com duas altas de 0,5 p.p. nas próximas reuniões, com uma Selic terminal de 13,75% ao ano. “É difícil dizer com certeza porque tem muita coisa para acontecer, mas nossa expectativa é que o BC não consiga parar a alta de juros na próxima reunião”.

Fonte CNN Business

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