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⟳ Atualizada em: 05/01/2021 15:04

“Saudade de um pagode, né, meu filho?” A frase surge no começo da música “Perdi o Chão, Ganhei o Céu”, do álbum visual “Abre Alas”, lançado por Ferrugem, 32, no final de 2020, e define muito bem o estado de espírito do cantor. “Quem não sente?”, questiona ele em entrevista à reportagem.

Ferrugem explica que sua relação com o público é muito próxima e que, por isso, o ano que passou representou uma mudança e tanto para ele. “Eu tenho o costume de todo show, quando acaba, descer do palco e ir lá no meio da galera”, conta. “Tem dias que eu me empolgo tanto que eu tiro a roupa e jogo para galera. Teve dia que eu saí de lá só com a cueca. É uma energia tão gostosa que faz falta na nossa vida.”

Foto: Divulgação.

É por isso que ele não vê a hora de voltar à estrada com o novo trabalho, depois de quase um ano sem fazer shows. “Tivemos o Carnaval, entramos de férias, e quando voltamos já estávamos na pandemia”, diz sobre 2020. “A gente já não voltou mais a trabalhar.”

Como o repertório do novo projeto já estava escolhido, ele tentou tocar do jeito que era possível na época. “Em abril, começamos a tentar gravar alguma coisa”, afirma. “Tinha um resultado de áudio, mas não era tão satisfatório porque não era do jeito que a gente sempre costumou fazer.”

Foi quando surgiu a ideia de transformar o que seria um álbum em DVD. “Estávamos há cinco ou seis meses sem encontrar com o nosso público, e seria muito pequeno a gente entregar só um projeto de áudio para a galera ouvir em casa”, avalia. “Eu queria entregar um espetáculo, para que eles se sentissem dentro do nosso show, por mais que fosse em casa.”

Desse modo, tudo o que havia sido produzido até então foi descartado e o cantor voltou ao estúdio, dessa vez acompanhado por toda a sua banda e com uma equipe filmando. A única ausência de fato era do público, por causa dos protocolos sanitários.

“Foi emocionante demais estar ali com todos os meus amigos tocando, foi lindo compartilhar aquele momento”, relata. “E a gente também conseguiu passar toda a emoção que estava sentindo de estar junto nos vídeos, para que a galera possa se emocionar em casa também.”

Ferrugem conta que o álbum tem o objetivo de resgatar as origens musicais dele. “Minha principal preocupação era trazer a essência que eu tinha nos meus primeiros trabalhos, que era o samba”, afirma. “Aquele sambão bem percussivo. O ponto principal era a sonoridade, o samba de raiz, aquela coisa de pandeiro.”

“Sempre gostei de dar destaque aos percussionistas da minha banda. Até porque o meu início de vida musical, a minha carreira, começou através de percussão. Eu nem cantava no início, eu comecei tocando. Então eu sempre prestei muita atenção, e isso foi se perdendo com o tempo.”

O cantor diz que a pressão pelo sucesso foi o que o fez se distanciar temporariamente de suas raízes. “Eu me vi, um tempo atrás, em busca do hit, caçando hit”, conta. “E não era isso. Até porque o samba não é um segmento que cria muito hit. A gente é mais de discografia. A galera não gosta muito de single, o nosso público fica até meio chateado quando lançamos uma música só.”

“Eu confesso que acabei mexendo demais, bateu um certo arrependimento e uma saudade de fazer aquilo que eu mais gosto de fazer”, revela. “Então partimos em busca de bons sambas, daqueles compositores que fizeram eu chegar onde cheguei.”

Ele se diz extremamente satisfeito com o resultado. “Taí uma coisa que eu não fazia era escutar meus discos depois de prontos, tipo entrar no carro e ficar ouvindo”, afirma. “Depois de lançado, o público que ouve. Eu não tinha esse costume. Mas ouço esse disco diariamente.”

“Entro no meu carro para ir à academia, ligo para ouvir o disco. Vou fazer alguma coisa em casa, vou arrumar o meu quarto, ouço meu disco”, diverte-se. “A sonoridade, as letras, o conteúdo, a emoção que o disco passa está me agradando demais, e isso está me deixando muito feliz. Estou amarradão!”

E não só com as músicas. Ele também tentou deixar os vídeos com a cara dele. “Eu sempre gosto de participar muito de todo o processo criativo dos meus álbuns”, explica. “Só que desta vez eu pude participar muito mais efetivamente porque eu não estava na estrada. Chegou um momento em que eu estava ali 24 horas em casa, então eu tinha uma agenda tranquilíssima para participar de tudo.”

“Me deram a brecha para eu entrar, e eu entrei de cabeça. Dei opinião em tudo”, diz, aos risos. “Eu costumo dizer que sou o assistente de pitaco. Fui dando meus pitacos ali. Claro que temos os profissionais mega qualificados para darem aquela martelada final e me darem os conselhos certos para que entreguemos um produto bacana, mas eu me meto em tudo, gosto de participar. Até porque, no final de tudo, o produto tem que ter a cara do artista. Se não vai destoar demais.”

É que Ferrugem está cada vez mais tranquilo consigo mesmo e com mais vontade de se mostrar como é para o mundo. Em 2020, ele chegou a enfrentar uma depressão, que ele tornou pública com a intenção de ajudar outras pessoas a perceberem ser possível achar saídas para a doença.

“No terceiro mês da pandemia, eu chorava toda noite e falava para minha mulher: ‘Eu preciso voltar a trabalhar, estou me sentindo um inútil’. Só que enquanto você está chorando porque não está trabalhando, tem outra pessoa chorando porque não está conseguindo o mínimo do mínimo, outra pessoa que perdeu um familiar por causa desse vírus maldito”, diz.

“Então não cabe à gente reclamar, cabe à gente agradecer enquanto estamos com saúde e ainda tem condições de manter a nossa família de pé. Seria ignorância e egoísmo demais da minha parte. Temos uma vida boa demais para reclamar”, avalia. “Parei para pensar, olhei para dentro da minha casa e vi que tudo o que eu precisava eu já tinha, a minha família me dando apoio e carinho, poder dormir e acordar com as minhas filhas.”

Ele diz que decidiu procurar ajuda quando percebeu que seu comportamento afetava as pessoas ao redor dele. “A melhor forma de você entender que tem algo de errado acontecendo com você é pedir uma segunda opinião e abrir o seu coração para receber isso”, aconselha. “Foi o que eu fiz. Ouvi das pessoas que eu mais amo que eu estava errando. Ouvi da minha mulher, ouvi da minha mãe.”

“Minha mãe foi a pessoa que sempre passou a mão na minha cabeça para tudo, a minha mulher também sempre esteve junto comigo para tudo, aí quando eu perguntei para ela, ela disse: ‘Posso ser sincera com você? Tem algo errado acontecendo contigo, você precisa procurar ajuda, sim. Você precisa se acalmar, sim, você precisa se cuidar, sim, e mudar as suas atitudes’. Aí eu caí na real de que tinha algo de errado.”

“Esse foi o start para a minha mudança”, confessa. “Senti vergonha das minhas próprias atitudes. E eu sempre fui um cara que nunca negou seus erros, sempre fui um cara de admitir quando estava errado e sempre vai ser assim.”

“Se eu for um cara de mentira, um cara de plástico, eu vou me distanciar cada vez mais das pessoas que me admiram”, diz. “Quem te admira de verdade, não te admira por quem você não é, mas por quem você é de verdade. Então nada mais justo do que você ser sincero e admitir quando está errado. É o caminho mais rápido para encontrar o perdão dessas pessoas também.”

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