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⟳ Atualizada em: 13/04/2020 15:45

A quarentena em vigor em muitas cidades é tido como essencial na tentativa de “achatar a curva” de infecção pelo novo coronavírus no país, mas tem cobrado um preço à saúde física e mental dos brasileiros.

Muitos deles têm recorrido às atividades ao ar livre para afastar o pensamento das preocupações e das consequências negativas do confinamento.

A prática, entretanto, divide a classe médica. Alguns acreditam que fazer exercícios fora de casa é submeter a si mesmo e aos outros a um risco desnecessário; outros acreditam que a prática pode ser benéfica, respeitando-se as orientações de distanciamento social.

A Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE), em sua última manifestação sobre o assunto, no dia 30 de março, diz recomendar a prática “desde que não proibida por lei decretada pelo poder Executivo”.

No  Tocantins , conforme o Decreto Estadual n. 6.072 de 21 de março de 2020, apesar de não haver uma proibição expressa nesse sentido, compreende se que a prática é desaconselhada pelo poder público, já que a orientação é que as pessoas saiam de casa apenas para a realização de atividades essenciais. Nesse mesmo embasamento, vários municípios também criaram seus decretos de quarentena para o enfrentamento do Covid 19.

Em Palmas a prefeitura desligou a iluminação dos parques , da  Orla da Graciosa,  onde a população se concentrava para fazer suas atividades físicas , passear e brincar com os filhos.

Benefícios e riscos

Nos demais locais,  a entidade afirma que a prática é recomendada “por ter efeitos benéficos para a saúde física e mental”.

E orienta que ela seja feita de forma isolada, para evitar qualquer tipo de aglomeração ou contato próximo entre pessoas. O Ministério da Saúde tem colocado como uma distância segura um intervalo mínimo entre um ou dois metros, mas alguns especialistas já recomendam uma distância maior por causa da transpiração durante os exercícios físicos.

A SBMEE alerta, contudo, que essas pessoas podem “se expor a situações de imprevisibilidade” e que, por isso, devem ficar atentas à possibilidade de “aproximação inadequada com outras pessoas em elevadores de prédios, áreas comuns de condomínios e em espaços públicos, além do risco potencial de contato com superfícies diversas (botões, corrimão, maçanetas, portas) eventualmente contaminadas”.

Ao mesmo tempo, “o benefício de uma caminhada neste momento é imenso”, diz a infectologista Raquel Stucchi, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Para ela, a prática de atividades ao ar livre que não levem a aglomerações, respeitando o distanciamento social, não aumentaria as chances de infecção pelo novo coronavírus, já que as evidências epidemiológicas dos últimos três meses em relação à covid-19 apontam que a transmissão se dá por meio de um contato mais próximo.

Para Jorge Sampaio, médico consultor da Microbiologia do Fleury Medicina e Saúde, ainda que do ponto de vista médico a distância de dois metros afaste em muito as chances de transmissão por gotículas, o debate deveria levar em consideração também o “direito do próximo”.

“Todos nós temos direitos iguais. Se todo mundo usufruir do direito ao mesmo tempo, nós vamos ter muita gente na rua”, pondera.

Há de se considerar também que pesquisadores em todo o mundo ainda estão estudando os caminhos de transmissão do coronavírus e o grau de proximidade que pode apresentar riscos.

Um estudo publicado por pesquisadores da Academia de Ciências Médicas Militares de Pequim no periódico Emerging Infectious Diseases, por exemplo, indicou que o vírus podia ser detectado — mas não necessariamente com capacidade de infectar — a até quatro metros de pacientes com covid-19 em alas do hospital Huoshenshan, em Wuhan, cidade chinesa onde a doença começou.

Exercícios físicos. Foto: Divulgação.

Outro trabalho, ainda não publicado em um periódico mas já divulgado por seus autores, usou modelos computadorizados para estimar quão longe partículas de saliva — que podem carregar patógenos como coronavírus — podem ir quando uma pessoa caminha, corre ou pedala, por exemplo. Uma vez que, ao se movimentar, podemos deixar “rastros”, os autores indicam que as distâncias seguras podem ser maior do que um a dois metros. Por exemplo, pode haver risco de transmissão quando a distância entre duas pessoas caminhando, uma na frente da outra, for menor que cinco metros.

Praticamente todos os brasileiros submetidos às medidas de restrição de mobilidade têm experimentado um aumento nos níveis de estresse. Procurar se exercitar em casa, nesse sentido, equivaleria a “se privar pensando no outro”, diz o especialista, que é professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP).

Ele ressalta ainda que não se sabe exatamente o papel dos contaminados assintomáticos na transmissão da covid-19 — e evitar sair de casa o máximo possível seria uma maneira de evitar esse contágio.

O que diz a OMS?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) não tem uma orientação específica sobre o assunto. A área do site da organização dedicada ao tema ressalta a importância de se manter ativo durante a pandemia e dá uma série de sugestões de como se exercitar dentro de casa.

Mas também orienta aqueles que “tiverem condições de sair para uma caminhada ou para andar de bicicleta” que não esqueçam de manter o distanciamento social e lavem as mãos com água e sabão antes de sair, quando chegarem ao local e assim que retornarem para casa: “Se água e sabão não estiverem imediatamente disponíveis, use álcool gel.”

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, recomendou a prática de atividade física  em uma coletiva.

“Quero sair pra dar uma caminhada, estou com criança pequena, é importante tomar um pouco de sol, vitamina D”, afirmou, ressaltando, entretanto, a importância de se observar a quarentena e o distanciamento social.

“Uma caminhada, fazer um pouco de exercício, exercício respiratório, isso é muito importante. Aglutinar, ir todo mundo para o mesmo ponto? Não, faça isso com muita parcimônia, guarde uma distância de dois metros e meio, três metros das pessoas. Faça isso de uma maneira pontual: desestressou um pouco, vai pra casa.”

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