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Dia de Finados de sol e lembranças

Atualizada em: 02/11/2017 13:09

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Publicado em: 2 de novembro de 2017 às 12:51 

Na manhã de hoje, dia 2, fui a um cemitério da capital e busquei retratar a morte sob o olhar de quem já era familiar a sua presença.

O Dia de Finados em Palmas não é a imagem habitual de um dia chuvoso e pessoas vestidas de preto visitando túmulos em silêncio. Na manhã desta quinta-feira, o sol parecia tentar aquecer o coração de quem se ajoelhava perante a lembrança dos que já se foram.

É difícil tentar se aproximar de uma pessoa que está absorta em seu luto para registrar uma imagem ou colher sua história. De longe, eu observava e imaginava o que cada um deles tinha na cabeça. Eu nunca tinha ido a um cemitério, nem mesmo quando pessoas próximas a mim partiram. Minha relação com a morte não é das melhores, e nunca fui religioso, mas minha empatia me fez entender que a percepção que possuo sobre o ciclo da vida e o que possivelmente está além dela mereciam um mergulho mais a fundo.

Por quem eles estariam acendendo uma vela Imagem: Pedro Monteiro

O primeiro contato que tive com a morte foi aos oito anos de idade. Eu acordei e minha avó não estava mais alí. “Então é assim?”. 16 anos depois eu ainda tentava ao máximo me manter distante dessa lembrança. Durante esse tempo, eu e a morte procuramos ter uma relação cordial, como dois primos que só se veem em datas comemorativas. Tomei a iniciativa de ir visitá-la, e ela me acolheu de uma forma que eu não esperava.

Foto: Pedro Monteiro

Hoje de manhã, um casal de idosos parou abraçado por um tempo, sem reparar que eu os observava. Fotografando-os de longe, me permiti imaginar quem eram aquelas pessoas, e quem eles estavam visitando. Poderia ser o seu filho, ou até mesmo algum amigo que já se fora há muito tempo. Meu avô diz quando envelhecemos só nos resta despedidas, e me entristeceu perceber que aqueles dois não eram mais os filhos de alguém, e que seus melhores amigos já não estavam mais aqui. Eles eram os poucos, senão os últimos, do seu tempo. Seu papel enquanto pais também já estava feito. Mas o que me entristeceu pode tê-los feito, de certa forma, felizes. Hoje eles se reuniam com quem quer que tivessem dado adeus, e fitavam em paz, aquele túmulo em especial, seu morador fazendo sala.

Em outras culturas o Dia de Finados é celebrado de maneira festiva. Havia um misto de festa e luto. Os fiéis se entregavam à missa e em certos momentos fechavam os olhos e sorriam, como se quem eles quisessem ouvir de fato falasse pelo padre.

Foto: Pedro Monteiro

Eu costumava ir à igreja quando pequeno, então as memórias são vagas. Elas não se conheciam, e lá estavam, de mãos dadas, se abraçando, compartilhando a dor da perda e o alívio em saber que há algo melhor além daqui.

Mais adiante, uma mulher chorava copiosamente, agachada, enquanto deixava flores a alguém que perdera recentemente – percebi como é fácil saber o estágio do luto pelo comportamento de quem estava alí.

Foto: Pedro Monteiro

Parecia que ela ainda não tinha passado da fase da aceitação, ou então era um fardo que ela esperava apenas por esse dia do ano para poder descarregar. Ela estava sozinha. Ela havia tirado aquela manhã de descanso para visitar a memória de alguém que lhe foi tirado sem a preparação necessária; mas quem está preparado para isso?

Mas o dia de hoje também tem as suas cores. Muitas flores e chamas acesas, a grama verde e o céu muito vivo. A morte não é cinzenta e fria. Ela é colorida que nem a vida. Na entrada do cemitério, vendedores animados, pessoas apontando para os arranjos, pensando no presente ideal para os moradores dos túmulos.

Foto: Pedro Monteiro

As almas de cada um que estavam enterrados ali eram aquelas chamas que queimavam o pavio da vida. Algumas apagavam antes da hora, outras duravam até a última gota de cera. Nada fazia mais sentido sobre a vida do que aquelas velas.

Foto: Pedro Monteiro

Então eu eu procurei naquele lugar a presença de cada pessoa que eu havia perdido, e prometi a elas que as visitaria com mais frequência. Finados não chega a ser um dia exatamente de comemoração para quem ficou, mas para quem já foi, hoje é dia de festa no céu.

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