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Dia da Consciência Negra: O gosto do sangue na água

Não é sobre educá-los. É sobre fazer os nossos perceberem que não devem esperar pelo afago de uma mão branca.

Atualizada em: 20/11/2017 11:52

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Sempre ouvimos o quanto somos criativos ou como nossa roupa é bonita, ou como nosso tom de pele é lindo e não envelhece. Sempre ouvimos o quanto somos privilegiados por nossa genética, e agora também ouvimos o quanto nosso cabelo é legal (porque antes não era). Aparentemente não poderíamos ter deduzido isso sem que alguma pessoa branca fosse lá e apontasse. Agora perceberam que temos uma identidade, que nosso cabelo não é ruim – só não é liso; que expressar e querer preservar uma identidade que por tanto tempo nos quis ser roubada, não é relutar e criar uma espécie de separação racial. Não perceberam que sempre estivemos aqui, lutando por espaço, ou então eles apenas buscam se adequar às novas normas do aceitável.

Me considerava privilegiado, até entender que era um privilégio que me foi dado como prêmio de consolação. “Agradeça pelo que você tem, já é o bastante”. Não somos mais talentosos ou brilhantes que as outras pessoas, nós simplesmente não temos chance para falhas. Trabalhamos em dobro para ter o mínimo de reconhecimento, às vezes nem isso. Não é privilégio ter que se superar a cada dia e esperar que alguém te dê o devido reconhecimento. Isso quando acontece. Não queremos consolação. Buscamos colher os frutos da nossa luta. E não se trata de fazer com que pessoas brancas entendam como isso é necessário e importante, e sim fazer com que os nossos saibam se posicionar. O mundo funciona assim. Infelizmente ação surte mais efeito que informação.

Por “se posicionar” me refiro a não abaixar a cabeça. Mostrar que você ainda carrega a herança daqueles que passaram pelo inferno para que você chegasse à metade do caminho para o céu. Eles não desistiram. O sangue ainda está vivo nas folhas. Não estaremos aqui para ver os frutos caindo maduros dessa árvore que demorou vingar. Quem sabe os próximos. Se não eles, os que vierem depois. E que fique claro, só estamos fazendo a nossa obrigação. O dia de hoje é para quem já recebeu olhares tortos em estabelecimentos, para quem já teve a impressão de que a pessoa do seu lado no ônibus segurou a bolsa com um pouco mais de força quando te viu, para quem é maioria em um país que não oferece o mínimo de visibilidade e participação na política, para quem tem medo de fazer parte das estatísticas e ser mais um a morrer porque estava andando à noite, em “atitude suspeita”, para quem ganha pouco mais da metade do salário de uma pessoa branca. Para você, que em algum momento da vida, viu que por mais estranho que fosse, alguém te tratou diferente por causa da sua cor.

Deixe seu sangue escorrer na água limpa. Quando virem que a água foi manchada, convide a pessoa a mergulhar mais a fundo. Aquele sangue na superfície foi apenas o primeiro contato dela com a nossa realidade. Lá no fundo está todo o sangue que não conseguiu se manter na superfície, e que essa pessoa não viu, talvez, não por maldade ou ignorância, mas porque não era o sangue dela. Uma vez que ela souber disso, ela vai sentir para sempre o gosto do sangue na água.

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