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Crônica: Unhas e suas entrelinhas – Por Savick Brenna

Atualizada em: 02/10/2018 15:42

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Minha avó costumava chamar atenção por diversas características. Além de ser uma mulher incrivelmente forte, possuía delicadeza para lidar com suas plantas, com as pessoas e o mundo ao seu redor. Em meio à todas aquelas particularidades que a tornavam tão grandiosa, um pequeno detalhe sempre me chamava a atenção: as suas unhas.

Ela possuía unhas grandes, arredondadas e sempre impecáveis com esmaltes de cores clássicas. Suas mãos já apresentavam o acúmulo de sinais do tempo, e as unhas pareciam ter parado nele por sempre permanecerem intactas. Era admirável como ela gostava de sempre estar com as unhas pintadas, e os dedos sempre cheios de anéis.

Em contrapartida, eu era uma criança que aos 5 anos de idade, já se apossava de um dos pouquíssimos defeitos do pai: roer unha. Uma infância inteira roendo unhas não foi o suficiente, até que a adolescência chegou e o vício completava uma década. Os comentários desagradáveis sobre as unhas roídas já faziam parte da minha rotina de vida, e eu me acostumei com todo o cenário em troca do alívio que roer as unhas dava à minha ansiedade que, eu descobriria a gravidade anos depois, mas isso é assunto para outra hora.

Eu costumava observar mulheres com unhas bonitas e sentia uma vontade imensa de ter unhas como aquelas, porém, eu já tinha aberto mão disso, até mesmo os meus namorados da época já haviam desistido. As unhas que eu tanto observava na infância pertenciam à minha avó, e ela não escondia a insatisfação ao ver as minhas, e muitas vezes eu até evitava encontros com ela por medo da cobrança constante para que eu as deixasse crescer.

Anos passaram, e a cobrança continuava, junto com a sua quase desistência, até que certo dia ela fez sua última tentativa e me prometeu um anel. Nem era preciso que ela prometesse, suas palavras eram sinônimo de acordos selados. Diferente dela, não consegui cumprir o pacto, e confesso que não houve esforço, simplesmente deixei o vício se apossar e por tentativas nada persistentes, desisti de tentar, afinal, qual era o problema em continuar roendo as unhas?

Minha persistência só ganhou força em 2014, quando um câncer chegou silenciosamente e levou minha avó sem nenhum silêncio. Após essa perda, uma força misteriosa se instalou na minha mente, e sem muita dificuldade eu consegui deixar o vício de 20 anos em menos de uma semana. Pela primeira vez, as unhas cresceram, eu até acordava mais cedo para ficar olhando aquela mão que nem parecia ser minha, e só pensava na infinidade de cores que poderiam colorir minhas unhas, mil possibilidades passavam na cabeça de uma mulher que, pela primeira vez na vida tinha as unhas que sempre desejou.

Quando vivi aquele momento de glória de ir a um salão de beleza para fazer as unhas pela primeira vez e pintá-las de vermelho, minha avó era a única pessoa que me vinha à mente naquele exato momento. Como se já não bastassem tantas ironias da vida, minhas unhas se tornaram tão marcantes quanto às unhas dela, tendo este como o meu desejo de infância concedido. Além disso, virei também a louca dos anéis, logo eu que nem dava importância para esse acessório.  

Fazer a minha unha virou um daqueles raros momentos de paz da semana para mim, onde minha mente trabalha que nem louca e meu pensamento vai direto na minha avó. Todas as vezes eu penso no que ela estaria achando em me ver cercadas por uma infinidade de esmaltes, e qual seria sua reação em ver minha unha pintada de verde, vermelho, rosa bebê, ou até mesmo laranja.

Uma oportunidade de surpreender a minha avó se foi, então eu gosto de pensar que ela observa de algum lugar todo esse progresso. Sou grata por todos os olhares e elogios às minhas unhas, contudo, jamais receberei o olhar e elogio que eu gostaria. Sendo assim, que ela esteja vendo essa película mal colocada, essa cutícula que eu sei tirar como ninguém, e meu kit de manicure que está sempre abastecido. E, se me permite um conselho, só peço que você deixe suas unhas crescerem o mais rápido possível, se é que você entende minha metáfora.     

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