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⟳ Atualizada em: 07/08/2018 09:25

Era sábado, quando eu, meus pais e irmãos decidimos fazer aquela inesperada e longa viagem à outra cidade. Ao chegar ao nosso destino, encontrei quase todos os meus familiares reunidos em um só lugar, e tive a oportunidade de conhecer todos aqueles que eu nunca tive nenhum contato. A casa estava cheia, as refeições eram feitas em grande quantidade para servir aquele pequeno batalhão de pessoas. Parecia o sábado perfeito para uma reunião de família, para contar muitas histórias de uma vida inteira em que não pudemos dividi-las, se não fosse por um detalhe cruel: aquele era o velório do meu avô.

Há pouco mais de duas semanas perdi o meu avô, e somente na despedida definitiva dele deste mundo, é que pude vivenciar um momento que seria tão incrível em outros tempos.  Naquele ambiente triste e silencioso, encontrei abraços consoladores de parentes que eu não conhecia, encontrei a mulher que conviveu com o meu avô por mais de 50 anos e que, eu nunca a conheci e nem a chamei de avó. Naquele dia eu conheci pessoas com laços de sangue tão próximos, no entanto, totalmente distantes devido à correria da vida que conhecemos bem, infelizmente.

Gostaria tanto de ter conhecido todas elas em uma confraternização no Natal, ou até mesmo em algum feriado prolongado que reunisse desde os mais próximos, até os que moram mais distantes, como aconteceu naquele sábado. Gostaria de ter conhecido o sorriso dos meus familiares, e não ter conhecido pela primeira vez as suas versões tristes e inconsoláveis. Não sei como é a versão feliz de cada um deles, não conheci, e não foi por falta de tempo ou oportunidade. Aconteceu que eu não podia tirar uma folga no trabalho, ou arrumar minhas malas em algum final de semana para visitar o meu avô, eu estava ocupada demais com todo o resto. Não arrumei tempo pra pegar o celular (que não sai da minha mão) e ligar para ele na tarde de um dia qualquer, só para saber como ele estava. Não me dispus a deixar de lado mais um feriado vazio desperdiçado em casa, para ir conhecer a casa que minha família vivia há décadas. Não me permiti largar tudo por alguns dias para conhecer melhor a rotina deles, e jogar conversa fora por longas horas. Tive uma sensação de desperdício ao olhar para aquelas pessoas, e a única coisa que pudemos trocar foram nossos olhares tristes e conversas que envolviam pouco diálogo além de condolências.

Enquanto observava e vivia todo aquele cenário, pedia mentalmente desculpas a cada uma daquelas pessoas, e principalmente ao meu avô, que era a quem eu deveria ter me desculpado muito antes. Só mesmo a sua morte reuniu toda a família que, jamais se esforçaria para aquele encontro se fosse em vida, esta é a verdade. Voltei pra casa com a dolorosa certeza que nem com o maior esforço do mundo, eu poderia voltar para aquela cidade, para aquela casa, para aquelas pessoas e tudo seria como foi um dia, quando meu avô ainda alegrava a vida de todos com sua disposição inabalável, e sua personalidade cômica de rir até nas situações em que sua vida ia tão mal. Infelizmente nunca saberei como é aquele ambiente com a presença dele, essa foi a certeza que eu levei comigo enquanto me despedia de todos e me preparava para ir embora. 

Só espero que agora eu utilize as outras funções disponíveis no meu celular, como ligar para aquelas pessoas que são tão importantes pra mim, mas que eu me dou ao direito de passar anos sem ligar, mesmo que seja pra conversar qualquer assunto. Espero que eu não passe a vida inteira achando que a grana anda sempre curta e que o dinheiro nunca dá para viajar para ver minha família, ou aqueles amigos que eu nem conheço os lares onde moram. Espero sinceramente que eu não sinta mais vergonha de pedir desculpas para alguém que não está mais aqui para ouvir, e que não pode me responder qualquer palavra que seja, pra que eu tivesse a certeza que a minha falta cometida ainda teria conserto. 

Ao final daquele dia, no instante em que dávamos o último adeus ao meu avô, olhei pro céu e vi um final de tarde tão límpido, tão azul, que parecia até uma pintura de tão incrível. Naquele momento eu tive a certeza que faria tudo diferente, e não iria reparar no que está à minha disposição todos os dias, somente quando não estivesse mais. Só olhei para aquele céu nítido por causa de um descuido ao olhar para o nada, enquanto eu buscava algum consolo. Não sei qual o destino daqueles que vão embora para sempre, mas talvez aquele fosse o céu de boas vindas, porque ele me disse algo naquele exato segundo.  

Se eu fosse criança e na minha volta para a escola fosse pedida uma redação com o tema: “minhas férias”, esta seria a minha redação. E quem dera se eu fosse mesmo criança e tivesse toda essa sabedoria sem ter que ter passado pela dor, para ter tempo suficiente de aproveitar um sábado de julho em família, e ter a chance de me aconchegar em uma casa pequena que cabe tantas pessoas, e principalmente, muito amor.  Mas voltando à realidade, sem redação, sem infância, sem ligações inesperadas, sem visita aos familiares, o que tenho para hoje é apenas um pequeno e sincero “sinto muito”.

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