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⟳ Atualizada em: 14/12/2018 08:54

Eu era uma criança de 7 anos de idade e morávamos em uma pequena cidade quando conheci Dona Luísa e Seu Francisco. A casa que eles moravam era cercada por plantas de várias espécies e um verdadeiro pomar que formava um dos quintais mais incríveis da minha infância.

Dona Luísa era como uma avó do outro lado da rua, sempre com um sorriso no rosto e um jeito amoroso de tratar as pessoas. Enquanto eu brincava com sua neta, ela nos servia doces, biscoitos e oferecia apoio moral à todas as nossas grandes ideias diárias. Ela era o sonho de avó de qualquer criança.

O seu companheiro, Seu Francisco, representava totalmente o oposto para mim. Naturalmente, ele carregava um semblante de homem ranzinza que apresentava medo a qualquer criança do bairro. Lembro-me de um dia em que eu estava perambulando pelo “pomar dos sonhos” e levei uma bronca do Seu Francisco, que me proibiu de pegar algumas frutas. Ele possuía uma deficiência nos pés e usava um estranho par de sapatos de couro que, no meu entendimento de criança, eram os únicos que se ajustavam perfeitamente. Durante aquele tempo, troquei poucas palavras com ele, uma vez que, eu já chegava à procura de Dona Luísa para me sentir segura do eterno mau humor de seu marido.

Nunca tive a chance de conhecê-los verdadeiramente fora da percepção de uma garota de 7 anos. Analisando hoje após tantos anos, aquele casal me intriga e me conforta. Como um senhor tão aborrecido poderia ter conquistado uma mulher tão doce como Dona Luísa? Como uma senhora que sorria com os olhos se apaixonou por um homem que parecia nunca sorrir?

Às vezes paro para pensar que, nas horas em que eu não estava presente, talvez Dona Luísa fosse zangada e Seu Francisco sorria aos quatro cantos. Quiçá ela não andasse sempre com aquele sorriso e ele não tivesse ideia do medo que causava nas crianças da vizinhança.

Fico pensando o quão incrível deve ter sido quando se apaixonaram um pelo o outro, e todas as razões disso ter acontecido. Como duas pessoas tão opostas decidiram envelhecer juntas e formar um casal que, ao mesmo tempo que era contradição, também se definia pelo equilíbrio. Há mais de 2 décadas que não os vejo, contudo, eles permanecem intactos na minha memória.

Luísa e Francisco me fizeram concluir que, encontramos pela vida pessoas com o poder de despertar o nosso melhor, e às vezes essas mesmas pessoas são as que despertam o nosso pior. Acho que eu nunca saberei de verdade quem foram aquelas duas pessoas que me causavam impressões tão distintas e davam sentido como ninguém à teoria de que os opostos se atraem.

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