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2017 em 12 músicas

As músicas que marcaram cada mês deste ano que foi uma verdadeira montanha-russa emocional

Atualizada em: 27/12/2017 18:44

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De todas as coisas que expressam o que acontece comigo, mais do que escrita e fotografia, a música é a mais certeira. Eu sou uma pessoa muito musical, levo ela a patamares visuais, ao tato. Em 2017 eu deixei um pouco de lado esse meu lado musical, por falta de tempo, de vontade, por ver que havia coisas mais importantes para lidar. Então tudo o que chegou até a mim, bom… chegou até a mim. Não tive interesse em ir atrás de nada novo, fui bombardeado por música pop de todos os lados, coisas que sempre chegam até você, querendo ou não. Foi um ano extremamente comercial, diferente dos outros, e fico feliz pelo nível que a música pop alcançou. O comercial de hoje era o alternativo de ontem, há uma evolução técnica e artística. Por fim, agradeço muito pelo fim dessa segregação musical. Deixem que o que é bom faça sucesso e possa chegar aos ouvidos de alguém que vá se identificar. Cada música dessa lista representa um mês, uma fase, uma pessoa que fui em 2017, de janeiro para cá. E também é uma desculpa para criar listas, porque adoro listas.

  1. Mariah Carey – I Don’t

Ao fim de um término, um RnB ressentido, carregado de sentimentos de falsa superação do tipo “Você não significa nada”, era tudo o que eu conseguia (e precisava) ouvir. A música veio no início do ano, e marcou uma fase pesada – na minha vida –, e na da cantora, que também passava por um momento conturbado. A diferença foi a maneira como ela lidou, ironizando tudo e passando por cima. Não é nada muito diferente do que ela fez nos últimos anos, mas tem uma batida densa, distorcida, e boa produção, e com certeza fez muita gente sentir uma autoestima passageira ao ouvi-la.

  1. Mary J. Blige – Thick Of It

Em outubro de 2016, Mary J Blige anunciava o primeiro single do seu décimo-quarto álbum de estúdio, Strength of a Woman, que fala de um divórcio bastante doloroso. Ao longo do albúm, a chamada rainha do RnB vai criando forças, como se cada faixa representasse um estágio na jornada de autoconhecimento que é estar sozinha. Mary entrega uma canção melódica, carregada, algo do qual ela tentou se esquivar em 2014, no seu álbum London Sessions. “Que ano difícil/ Se passei por esse inferno e voltei viva/ Eu não tenho nada a temer”. A capa do single consiste na cantora refletida em um espelho dourado, ponderando, aos seus 46 anos, mais bonita do que nunca, pronta para recomeçar e transformar em arte seus demônios.

  1. Poo Bear & Anitta – Will I See You

Até o começo deste ano, eu não botava tanta fé na carioca. Ela surpreendeu ao ponto de lançar uma das melhores faixas do ano (mesmo que muita gente discorde ou não tenha prestado muita atenção), algo que ela intitulou de “bossa nova pop”. Apesar de ter causado bastante estranhamento entre os fãs da cantora, que estavam acostumados ao “batidão” e coisas mais fáceis entregues nos trabalhos anteriores, a música, produção de Poo Bear, traz a voz de Anitta em sua melhor forma, junto com cordas e a nostalgia dos anos 2000. De certa forma, a letra é reconfortante: o amor tem prazo de validade, por mais bonito e sólido que seja, e apesar das sementes plantadas, todo começo tem um fim. Foi um marco surpreendente e subestimado na música nacional, mas não na minha vida.

  1. Khalid – Young Dumb and Broke

“Eu estou tão chapado agora / Tão preso nisso / Sim, nós somos jovens, burros e sem dinheiro / Mas ainda temos amor para dar”. Amar sem compromisso, ser jovem e viver sem se prender a nada. É uma fase da vida que chega a irritar quem, como eu, gosta de tudo muito certinho e sente necessidade de estabilidade. Acontece que, quando olhamos para trás, a fase “jovem, burra e sem dinheiro” parece sempre ter sido a mais feliz, e ela só vem uma vez. Não adianta tentar revivê-la depois que você já fincou um alicerce, mesmo que você o tenha perdido. Por isso, apesar da imaturidade da letra, essa música representa algo de bom que todos merecemos. Então deixe o garoto ser como ele deve ser. Um dia, ele também vai sentir falta disso tudo.

  1. Jessie Ware – Selfish Love

Com um curto repertório (dois álbuns de estúdio), Jessie Ware conseguiu criar pontes que ela atravessa com facilidade, para falar de novos sentimentos e deixar para trás o que já passou. No terceiro single do seu mais recente álbum, Glasshouse, ela revive a glória das guitarras latinas e amores bandidos. “Você mente para mim e eu distorço a verdade”. A produção é familiar, tem um frescor, e causa aquela sensação de aconchego para quem ouve a música pela primeira vez. No vídeo, o relacionamento abusivo, intenso e conturbado termina em morte. “Amor egoísta, por que eu faço essas coisas?”. Depois que você mata o que te corrói, assim como Ware, você senta, relaxado na beira da piscina, aproveitando a paz interior e a liberdade.

  1. Cardi B – Bodak Yellow

Dinheiro, poder, sapatos, influência. Cardi B, a dona do maior hit de 2017 (não são minhas as palavras, mas é preciso reconhecer o feito), conquistou rapidamente as paradas com sua batida simples, algo que remete ao rap do início dos anos 2000, e a ausência da habitual estrutura presente em todas as músicas lançadas nos últimos anos – Bodak Yellow não apresenta um refrão poderoso e uma melodia trabalhada, e ainda assim fica na sua cabeça, mesmo que contra sua vontade. O que ela marca em minha vida? Bom, basicamente nada, mas foram bons os momentos em que imaginei como deve ter sido pra uma stripper (Cardi) ter alcançado o topo e podido cantar sobre a vida de luxo que ela sempre sonhara. Ficar feliz pelos outros também faz bem, e depois de meses, a música continua na minha cabeça.

  1. Kesha – Bastards

“Eu poderia lutar para sempre, mas a vida é muito curta”. Kesha abre seu mais recente álbum, Rainbow, com um desabafo, algo que parecia estar guardado há muito tempo. Bastards é uma canção simples, toda em cordas, sobre como a gentileza é subestimada, como as pessoas são cruéis umas com as outras, e sobre como a artista, que sofreu assédio sexual, foi aos tribunais e teve que se reerguer após perder quase tudo, conseguiu superar e criar um álbum diferente de tudo que ela já havia feito. Não que seja seu melhor álbum; de fato, Kesha nunca chegou a lançar algo realmente bom, mas esse trabalho representa para ela, e para quem também perdeu muito, uma nova chance.  “Eles não quebrarão meu espírito, não os deixarei vencer”. Depois que você percebe que tudo depende de você não dar uma chance para que te façam o mal, você consegue viver em paz.

  1. Rita Ora – Anywhere

Ninguém gosta muito da Rita Ora, por algum motivo inexplicável. Ela tentou, tentou, e quase morreu na praia. Mas Anywhere mostra amadurecimento e finalmente uma música sem forçar a barra. É gostosa de ouvir, é simples, a letra é bobinha e cativa. Fugir para longe com alguém, viver um sonho e ser apenas mais um no meio de uma multidão. Às vezes passar despercebido é melhor que se destacar, às vezes você só precisa de um momento. Rita Ora conquistou o momento dela cantando sobre, finalmente, algo oposto ao que ela vinha almejando durante seus poucos anos de carreira. Ponto positivo para o clipe, que é visualmente atraente, simples, e dá vontade de sair correndo em busca de nada especificamente.

  1. Ionnalee – Not Human

“Capturar a essência das partes mais poderosas de si mesmo”, é o que Jonna Lee, aka Ionnalee, a escocesa a frente do projeto Iamamiwhoami (em hiato), busca transmitir com esta música tão belamente produzida. Arrisco dizer que Jonna não cometeu erro algum durante sua carreira, desde o primeiro viral lançado, em um dos projetos mais ousados da história da música. Sua estética causa estranhamento, sua voz não parece pertencer a um ser humano. Ela nunca fez questão se mostrar humana em seus vídeos, e desta vez, ela brada, no seu melhor refrão: “Olhe o quanto cresci, não sou humana”.  Se desprender de tudo o que te enfraquece para poder crescer, de sua humanidade, inclusive. Ionnalee deu adeus temporariamente a sua forma humana, em uma jornada para aperfeiçoá-la. Que sua nova saga seja tão interessante quanto a do último trabalho, Blue, de 2014.

  1. Kelela – LMK

A faixa mais leve do álbum de estreia da cantora, Take Me Apart, fala sobre abrir-se a alguém novo, mas sem esperar muita coisa, algo casual, contanto que esteja tudo claro. Nada de muito profundo para mim, mas como disse lá em cima, uma música não precisa ser uma trovada para marcar. É a prova de que o RnB segue em boas mãos. No vídeo, Kelela aparece como várias, dançando e se divertindo com os amigos, em uma fotografia noventista digna dos vídeos de Aaliyah e grandes nomes do gênero. As várias Kelelas representam todas as mulheres que mandam em si mesmas, e podem ser o que quiserem. Ela se faz vulnerável e decidida, ao se revelar no final, mostrando que até os relacionamentos mais despretensiosos precisam de um norte, para que tudo fique bem combinado e não haja confusão no final.

  1. Miley Cyrus – Younger Now

Minha relação com Miley Cyrus foi sempre de amor e ódio. Durante uma fase conturbada – pessoal e artisticamente – na fase da cantora, ficou meio que impossível simpatizar com o que ela estava produzindo. Mas mesmo nessa fase era inegável a sua habilidade de compositora, mesmo que falhando miseravelmente no que se propunha a entregar. No primeiro semestre deste ano, ela apareceu completamente diferente, e então veio Malibu, uma música leve e ensolarada, que marcava o fim de Miley com apropriações culturais desnecessárias e consumo de drogas. Ela era outra pessoa. Em seguida, pouco antes do lançamento do álbum homônimo, ela me conquistou totalmente com Younger Now (principalmente por ter sido lançada no dia do meu aniversário). Depois de tudo o que fui e o que passei em 2017, a música veio como um presente de aniversário. Sua letra é bem clara ao dizer que ninguém é o mesmo sempre, e que não precisamos ter medo de quem fomos no passado. Tudo é aprendizado. No clipe, Miley recorda de sua carreira, sutilmente, em meio a dançarinos da terceira idade, uma maneira de mostrar que a fase mais jovem de nossas vidas é aquela em que nos sentimos completos e sem culpa pelas várias pessoas que somos no decorrer da vida.

  1. SZA – Drew Barrymore

A música que mais bateu e ficou em 2017. É a figura sem autoestima da cantora, que tem medo de ficar sozinha mas também de se relacionar. O nome da faixa é uma homenagem aos filmes de comédia romântica dos anos 90, em especial “Nunca fui beijada”, com a atriz Drew Barrymore, uma mulher de meia-idade que tinha medo de relacionamentos. “Tenho tanta vergonha de mim, acho que preciso de terapia”. Ela se desculpa por ser como é, por não ser bonita, por não depilar as pernas, por não ser tão feminina, e não se propõe a ver que ela não precisa ser outra pessoa, como nas comédias românticas, que apresentam uma protagonista totalmente diferente e segura no final do filme. Aqui há uma realidade desconfortante, por não ter um final feliz na música. “Fico sozinha, esqueço que tenho meu valor. Ficamos sozinhos, fingimos que isso dá certo”. É o mal de toda pessoa que acha que não merece ter alguém melhor do lado, e que não consegue conviver consigo mesma. Se submeter a qualquer relacionamento para não estar só, para depois se perguntar o que fez de quando, quando estiver só. Drew Barrymore é linda, abrangente e específica ao mesmo tempo, em retratar algo tão pessoal que reflete em tanta gente. SZA diz que sempre sonhou que a faixa tocasse em algum “desses filmes”. Felizmente, para ela, sua música está sim tocando, na comédia romântica não tão engraçada de cada um de nós, os que tem medo da própria companhia. O que pode vir de positivo disso tudo é que, ao menos, ela percebe que precisa de ajuda.

 

 

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